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Tio Patinhas e a Moedinha do Infinito


Um dos primeiros e mais antigos artigos que eu escrevi aqui pro blog era sobre o Tio Patinhas, sobre a biografia feita por Don Rosa.

Sim, é a biografia de um pato que veste roupas, espanca buldogues que vestem roupas, e foi amigo de Theodore Roosevelt, vigésimo-sexto presidente dos Estados Unidos da América. Você vai negar a existência de Theodore Roosevelt agora? Hein? HEIN?

Continuando, dizer que eu amo o personagem e o que ele representa, e como ele foi importante na minha formação como leitor, criador, comentarista e ser humano, é chover no molhado, e qualquer um que tenha um mínimo de bom senso deveria encher sua vida de mais quadrinhos sobre patos falantes de cartola e polainas.

Não, sério, eu provavelmente aprendi mais sobre História do mundo lendo as aventuras escritas por Barks e Rosa do que na escola.

De fato, uma vez, estava eu em casa numa noite de quarta-feira de 2009, eu estava no computador, distraído, provavelmente procurando algum site de download com episódios de Boukenger que não estivessem no MegaUpload. Nisso, 1 Contra 100 rolando na TV, e Roberto Justus pergunta, "qual a primeira cidade da América a instalar energia elétrica?" e eu respondo sem titubear: Nova York.

O Kapai duvida de mim, e, pra surpresa dele, eu tava certo. "Onde cê viu isso?" "Numa história do Tio Patinhas".
Pior, era uma informação de passagem, nada importante, mas eu tinha lido A Saga do Tio Patinhas tantas vezes que eu já tinha decorado praticamente todos os balões de diálogo.

E uma das coisas que mais me fascinam em quadrinhos Disney é como existem trocentas histórias, mas dificilmente eu consigo lembrar de duas que sejam parecidas, ao passo que em televisão há incontáveis episódios semelhantes entre séries diferentes. Dá pra dizer que as aventuras do velho sovina são até... infinitas.
...
Fiz o trocadilho imbecil, agora podemos ir ao artigo!
...
Eu não dormi hoje, não sei se dá pra perceber.


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Nossa história começa na famosa Montanha do Urso, ou seja lá como a tradução oficial tenha decidido chamar. Esses dias li uma republicação de Perdidos nos Andes e era completamente diferente da versão que eu li quando pirralho, então vai saber como eles vão traduzir. Enfim.

Estamos no NATHAAAAAAL, a melhor época de todas, e na história original, Patinhas se lembra de Donald e HDL, os testa pra saber se eles são bravos o suficiente pra serem dignos de sua hospitalidade, e é o que acaba trazendo à tona a sede do velho por aventuras, alegrias, e toda sorte de sentimentos bons que te dão uma nostalgia pelo que está acontecendo agora.

HDL é Huey, Dewey e Louie, é o termo usado no Inducks pro Huguinho (Vermelho), Zezinho (Verde), e Luisinho (Azul), assim como os fãs de KH chamam o trio principal de SDG.

E agora você que faça sua pesquisa.

Porém, nessa realidade, o velho sovina não é visitado pelos familiares, e continua rabugento, ranzinza, e reclamando de tudo na vida feito um redditeiro. Ele sente um vazio dentro de seu peito, e não sabe como preenchê-lo, mesmo tendo capturado tesouros de todas as partes do mundo. É aí que ele encontra um espelho que havia roubado da Maga Patalójika, e percebe um outro Patinhas no reflexo... e rouba a Moedinha Número Um dele, e descobre sua nova fronteira... OUTROS UNIVERSOS!

DUN DUN DUUUUN!

Nisso, Patinhas começa a roubar as outras Caixas-Forte e as Número Um de outros Patinhas, e cada uma que coleciona o torna mais poderoso... até que o Patinhas canon decide resgatar seu rico dinheirinho.
Nesse contexto, eu sei lá o que significa o Patinhas Canon. É o Patinhas de Carl Barks? Don Rosa? Cavazzano? O daquele curta onde ele ensina HDL sobre a História do dinheiro? Duck Tales? Duck Tales 2017? QUEM SABE? Quem liga?

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O conceito da história em si não é ruim. Pelo que pesquisei, o autor da one-shot, Jason Aaron, tende a fazer isso quando escreve heróis da Marvel e DC (o conceito de uma versão lutando contra outras versões do herói em questão), mas funciona perfeitamente pra uma história do Tio Patinhas.

É perfeitamente encaixável em uma franquia onde cada autor, cada escritor, cada desenhista tem uma visão muito particular de cada personagem, mas ao mesmo tempo conseguem ser mais coesos que Marvel, DC, ou até Star Wars pós-Disney. 

Algumas versões são mais enérgicas e exageradas, como as italianas, outras são mais cerebrais e sarcásticas, como Barks e Rosa, e outras tendem a ser mais focadas em diálogo e até contemplativas, como os já mencionados Barks, Rosa e autores dinamarqueses.

Raios, até o design das Caixas-Forte muda dependendo do país de origem, mas continuam tendo elementos em comum entre si. Rosa tem um senso de realismo e arquitetura fora do comum, tem uma história que ele de fato faz uma planta do depósito; ao passo que o design italiano é tão cartunesco que parece ter sido arquitetada pelo Pee-Wee Herman.


Acho que a única diferença gritante é em como Rosa trata a mitologia em torno da Número Um, que ele escreve não como um amuleto que atrai boa sorte, mas como um símbolo maior de esforço e trabalho duro, enquanto outras versões ativamente implicam que o objeto de fato tem poderes sobrenaturais.

Nessa versão, é bem claro que houve um misto de ambas versões: a Número Um de fato tem alguma parcela de algo mágico, já que o Patinhas Superior consegue manipular raios coloridos das mãos; mas a real constante é o próprio Patinhas e seu relacionamento com a moeda.

De fato, tem uma história (creio que italiana, não lembro agora), que Patinhas diz que a Número Um só dá sorte pra ele porque é a moeda dele, algo que é confirmado em parte pela Maga Patalójika numa história do Don Rosa onde ela viaja no tempo pra impedir que Patinhas ganhe a moeda quando pirralho.

Só aí dá pra ver que o Aaron realmente é fã do velho pato e que fez o dever de casa em alguma medida. Ainda assim, o ritmo da história é... bisonho.

Pra uma história que propõe reunir Patinhas de vários universos diferentes, a história não entrega o que propõe.

Temos Patinhas diferentes, mas, pra qualquer um que seja minimamente familiarizado com a biografia do Scrooge e com o conceito de lógica básica, nota que Aaron traz o mesmo Patinhas em vários pontos diferentes da mesma linha do tempo.
Temos o Patinhas atual, o Patinhas Pirralho, o Patinhas Rei do Transvaal, o Patinhas Rei do Castelo McPatinhas... É visualmente interessante, mas ainda assim, não são Patinhas diferentes.


Como outros, eu creio que o pitch original tenha sido de uma mini-série em tipo 3 ou 6 edições, o que faria muito mais sentido. Daria pra explorar melhor o Patinhas encontrando Patinhas de outros universos, tentando avisar e combater o Patinhas Supremo de roubar suas respectivas Caixas-Fortes.

Imagina o Patinhas de Cavazzano, com o traço grosso e cartunesco indo parar na versão de Don Rosa, com traços mais finos e tão ricamente detalhados quanto um quadrinho europeu? E ambos se juntam pra impedir que o mesmo roubo seja feito ao Patinhas de Barks, e temos um momento onde o Patinhas de Barks e Rosa conversam sobre suas vidas e percebem que eles são praticamente o mesmo, só ligeiramente diferentes no visual? Algo parecido poderia acontecer com as versões de Duck Tales original e reboot.

De fato, vários episódios de Duck Tales foram diretamente inspirados por histórias de Barks ou Rosa... eu acho. Eu tenho certeza que tem um episódio que ele leva os sobrinhos pra retomar o castelo na Escócia, que é literalmente um plot d'A Saga, mas o final é completamente diferente... e o Professor Pardal tá lá por algum motivo.

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Devaneios de um velho delirante e autista à parte, essa descrição soa muito mais condizível com o que a história acha que está fazendo e que inicialmente se propõe a fazer, exceto que Aaron disse "então, essa história deve durar umas 5 ou 6 edições" e a Marvel disse "você tem uma edição", e algum advogado da Disney teve que explicar a dor de cabeça que seria usar material de Duck Tales ou de Don Rosa nos quadrinhos.

Pra quem não sabe, a forma que a Disney lida com os quadrinhos é ornitorrincamente bisonha, a ponto do controle de qualidade ser inexistente e o pagamento de royalties ser pior ainda. Don Rosa teve que registrar o nome dele como uma trademark (como se faz no GROLIOSO NIPPON) pra poder ter uma chance ligeiramente maior de conseguir controlar como a própria obra dele é distribuída mundo afora. Ele só não deu uma de Ken Penders porque ele tem mais que um pingo de caráter e legitimamente respeita a arte de fazer, ler e colecionar quadrinhos.


Dito isso, a fluidez da história não é tão ruim. Os eventos acontecem em uma ordem que faz sentido, algumas páginas splash talvez confundam alguém quanto à ordem de leitura dos quadros e balões, mas nada de muito grave. O final é extremamente corrido e beira o deus ex machina (ou deus ex monero, HAH), mas é conceitualmente satisfatório.

A arte é fantástica, tho. Os personagens se parecem com os que conhecemos dos quadrinhos Disney (muito inspirados no traço italiano), mas com um acabamento e cores que são mais comuns de quadrinhos de heróis modernos. É um pouco esquisito no começo, mas é perfeitamente acostumável, e alguns dos ângulos são bem mais ousados do que vemos normalmente nas aventuras de patos.

Paolo Mottura foi o responsável pelos desenhos, ele já tem feito muita coisa da Disney recentemente de vários personagens, mas talvez cê deva conhecer ele de Ratópolis.
E se tu leu Ratópolis, você deve ter tido a mesma reação que eu: "ah sim, faz sentido agora".  

E talvez a pressa da história, o fato de ser só uma one-shot, e a história ter várias limitações seja porque foi a primeira colaboração da Disney com a Marvel... nesse sentido. Foi a primeira história com personagens da Disney a ser produzida pela Marvel, o que provou ser um sucesso o suficiente pra que eles aprovassem outros crossovers, como Pato Donald Wolverine (que eu resenhei aqui), e Mickey e Seus Amigos como Quarteto Fantástico, que eu comprei ano passado pela Amazon, nunca sequer entrou a caminho, e hoje eu vejo que o sistema sequer considera que eu fiz o pedido algum dia. Aconteceu a mesma coisa com a primeira edição do crossover de Sonic e DC, e eu tive que comprar outro esses dias.

Aparentemente, a distribuição da Panini é tão boa quanto um órgão público.

Seja como for, pra uma história assim, é um preço meio salgado, cerca de 20 reais. Por menos que isso, eu comprei a Graphic Novel de Epic Mickey, que tem várias histórias que se passam no universo do jogo, e ainda tem textos explicativos sobre os personagens do jogo e referências obscuras.

O mínimo que a edição brasileira podia fazer era publicar a história Natal na Montanha Urso, igual a versão americana. Ao invés disso, eles resolveram transformar a capa do gibi em algo colecionável.
Digo, publicaram as duas histórias... mas só na edição de luxo.


É! Eu comprei e recebi numa embalagem de papelão explicando quantas unidades de cada variante existem, e a mais rara é a mais feia, desenhada por um Frank Miller que, se fosse um iniciante, não conseguiria desenhar pra salvar a própria vida.

Não, sério! Olha essa aberração! Parece que o Tio Patinhas entrou num buraco negro junto do dinheiro, mas ele não parece preocupado nem com o dinheiro nem consigo, e o registro foi feito por uma câmera cuja lente estava cheia de água por algum motivo.


Don Rosa parou de desenhar porque teve um problema em um dos olhos dele em que ele via tudo meio borrado e tremido, e uma capa variante única feita por Don Rosa seria muito mais bonita e teria um prestígio real pro gibi.
Mas aí a Disney teria que pagar o cara, então chama aquele véio que não consegue diferenciar grossuras de lápis nem se a vida dele dependesse disso, mas que ainda tem valor de mercado porcausa de Cavaleiro das Trevas.

Se ver em alguma promoção em alguma bienal ou algum sebo custando... sei lá, cinco reais, compensa, é uma história com um conceito muito melhor que a execução. Ele te joga conceitos que você adoraria ler em algo mais longo e melhor bolado, tipo o Conselho dos Pardais, mas é tudo feito de maneira tão rápida e seca que mal dá pra aproveitar as idéias, embora elas estejam no lugar certo.

Seu dinheiro vai ser muito melhor investido em qualquer coisa que tenha o nome de Barks ou Rosa, isso eu te garanto.

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