E se o Pato Donald fosse o Wolverine?
Eu não sei por que demorou tanto tempo para a Disney fazer os crossovers em quadrinhos com a Marvel, mas a HQ Pato Donald Wolverine (da linha Disney What If…?) mostra que esses personagens, agora sob o mesmo teto, têm muito em comum.
Temos os irritadiços como Donald e Wolverine, o bom-mocismo heróico de Mickey e Capitão América, e até a broaca insuportável que não entende o trampo do namorado e é uma folgada que acha que tudo tem que ser sobre ela, como a Margarida e a Mary Jane do Sam Raimi.
Tá, quando eles compraram a Casa das Ideias, fizeram umas capas com alguns heróis inspirados em Tron para divulgar Tron Legacy (ironicamente), mas nunca teve uma colaboração mais profunda entre os personagens clássicos.
Talvez porque Bob Iger não queria assustar os fãs e o dono da Marvel na época era um sujeito meio esquisito, mas completamente homem de negócios. Fazer essa sinergia logo de cara era arriscado, era uma época diferente. Raio, eu lembro de gente com real medo do Zac Efron cantar em uma possível série dramática de Star Wars na época.
Seja como for, qualquer referência à Marvel era mais paródia, como já faziam antes. Tem uma história que o Mickey ganha superpoderes e tem até um editor de quadrinhos inspirado no Stan Lee, por exemplo. De cabeça eu lembro dessa, mas devem haver MUITAS mais.
Mas agora a Disney lançou essa série de one-shots integrando conceitos e storylines Marvel no Sexteto Sensacional, como comemoração aos 90 anos do Pato Donald e 50 do Wolverine.
O ponto é: o resultado é digno de tamanha fanfarra? Era necessário lançar uma história curta de cada vez? E o mais importante: quando vai chegar o encadernado que coleciona essas histórias em um único volume aqui no Brasil?
Eu não faço ideia, porque a Panini atrasou pelo menos duas vezes a entrega do meu Quarteto Fantástico, então hoje só vou comentar sobre o Pato Donald Wolverine e se os meses de espera na pré-venda valeram a pena.
Raio, é um gibi que saiu originalmente lá fora em 2024, por que ele ainda estava como pré-venda para mim em pleno 2025?
A história começa numa Patópolis desolada, completamente dominada pelo crime, comandada pelo Bafo-Caveira e pelos Irmãos Metralha. O que é engraçado, porque ele tem a cara vermelha, mas não é uma caveira.
Não existem mais heróis, não porque eles foram brutalmente assassinados quando todos os super-vilões se juntaram, mas porque suas armas foram roubadas. Como isso aconteceu? Que bom que perguntou, porque o gibi não responde.
O único herói que não precisa de armas é o Donald Wolverine, porque aparentemente, nesse universo da Marvel/Disney, não existem magos, mutantes, gênios, ou seja lá onde o Luke Cage se encaixe. Se bobear, o Luke Cage desse universo é o Pedrão, e ele deve estar muito ocupado sendo leão-de-chácara pra algum traficante no Rio.
Donald-Wolverine passa os dias dormindo tranquilamente no sítio da Vovó Donalda, longe de todo drama que acometeu aos super-heróis… seja lá por qual motivo. Até que aparece Mickey-Gavião Arqueiro, que…
…
Pera, todos os personagens tem hífen no nome? Não tinha um cristão na sala editorial pra sugerir um nome melhor?
Logo a Disney??
Quadrinhos de comédia como Disney, Mônica e Archie sempre se deram bem parodiando nomes de heróis e marcas famosas, ou até criando trocadilhos. Nomes como Superomão, Batmão, Poca-Cola, e Eva Porosa são clássicos e se implementam naturalmente nas histórias.
Se tivessem usado coisas como Patorine, Rato-Arqueiro, Ga-Hyulk, seria muito mais natural e engraçado. Claro, Patorine soa como uma marca de enxaguante bucal e o nome civil provavelmente seria Dolan, mas até isso poderia ser usado pra gerar comédia na história, que já não é tão engraçada quanto provavelmente deveria ser.
Mas me adianto na crítica. Mickey aparece pra pedir a ajuda de Donald pra recuperar as armas roubadas dos heróis, mas ele se recusa, dizendo que é um pato diferente e que não perde a paciência facilmente como antes. Mickey o convence do contrário com uma irritação mínima e o convence ao lembrá-lo dos anos de ouro do heroísmo.
O Pataju então se junta ao Mickey em seu carro que claramente pertencia ao Dolan, detalhe que ninguém menciona. Só que o Pateta-Hulk vai junto, e ele tem um histórico com Donald.
O Pateta interrompeu a soneca do Donald perguntando o caminho pra Toronto, e foi pro caminho oposto.
Completamente justificado, se me perguntar.
O Pateta, digo. A última coisa que alguém são iria querer é ir pro Canadá.
Nisso, eles relembram aventuras passadas, uma desculpa pra ter mais referências a outros quadrinhos clássicos Marvel, como o Pateta Tira-Teima e o monstro de… Krakoa? É assim o nome? Eu sempre achei que fosse uma ilha de Sumatra.
Mas pelas imagens a seguir cê vai notar que o Pateta tá cinza, e não verde como de costume (e nesse flashback). Se você tem um mínimo de conhecimento sobre Marvel, sabe que o Hulk era cinza, e depois ficou verde. Eles usam isso aqui como um ponto do plot, já que Donald entra em modo berserk ao ver qualquer coisa verde.
Exceto o uniforme do Bafo Caveira, ou a grama na fazenda. Vai entender.
Alerta de spoilers, mas usaram uma tática pra deixar o Pateta cinza, porque a cor verde ia gatilhar o Donald, e retornou pro verde no clímax pro Donald pistolar e derrotar o Bafo Caveira.
A história é baseada em Old Man Logan (embora referencie outras histórias, como Arma X), só que family friendly, o que é um conceito chocante por si só. Não que seja uma idéia ruim, mas muito do que acontece na saga poderia ter sido melhor aproveitado, e ainda manter o senso de humor apropriado.
Podiam ter explicado o paradeiro dos outros heróis, ou como exatamente o Bafo conseguiu roubar as armas deles, ou algum McGuffin pra fazer o Donald voltar à ativa. Mickey não dá motivos muito bons além de "do you 'member? I ‘member”, enquanto em Old Man, o Gavião Arqueiro precisa entregar uma maleta de drogas no outro lado do país, mas o glaucoma dele tá tão avançado que ele não consegue dirigir, aí ele pede ajuda pro Wolverine.
Outros pontos da narrativa são jogados meio que aleatoriamente, como nomes de personagens que nunca aparecem, e elencagens estranhas.
De quem foi a idéia de colocar PLUTO como COLOSSUS?? Com o imenso número de personagens disponíveis no panteão quadrinhístico Disney?
É algo que requeria mais tempo de planejamento, claro. E um cuidado maior que só poderia vir de uma paixão genuína pelos personagens de ambas marcas. Não dá pra jogar um personagem ligeiramente mais obscuro como Colossus e esperar que faça sentido. Por exemplo, se fosse o Peninha, primo do Pato Donald, quem seria o Dente de Sabre?
Pelas entrevistas do próprio gibi, fica claro que decisões de elenco ficaram a cargo dos chefões editoriais que não lêem quadrinhos Disney. O roteirista Luca Barbieri conta que os personagens já haviam sido escolihdos pela Marvel/Disney, e que ele mesmo tinha pensado no Mancha Negra como Caveira Vermelha, antes de escolher (ou aceitar) Bafo de Onça.
Mas não só isso, os próprios diálogos são um pouco esquisitos. Talvez tenha algum ruído de tradução, porque a história foi inteiramente concebida em italiano e depois traduzida pro inglês, e então pro português (supostamente, não encontro nenhuma imagem da HQ em italiano). Vendo a versão americana e brasileira, dá pra ter alguma noção, inclusive de adaptações, mas tem um momento crucial que ainda me incomoda.
No clímax, os três heróis estão acorrentados e levados ao quartel general do Bafo-Caveira. Mickey olha pro Pateta e diz “Boa, Pateta-Hulk! Sinal verde pra você!”
A expressão “Boa!” faria sentido se o Pateta já estivesse fazendo alguma coisa, mas o contexto dá a entender que era uma deixa, uma parte do plano do Mickey. Em inglês, Mickey diz “That’s it!”, que literalmente é “É isso!”, o que funcionaria melhor como um sinal pra que alguém faça alguma coisa dentro de um plano.
Não sei como tá no italiano, como já mencionei.
A melhor coisa aqui é a arte, que tem um pouco do estilo italiano já familiar, mas ao mesmo tempo acrescenta alguns detalhes a mais de cenário. Ainda assim, é um desenho digital, e embora não tenha tantas falhas de diferenças de traço como em Donald Jovem, alguns momentos aqui são bem perceptíveis, como no flashback em Patakoa.
Mas no geral, sente-se como um traço tradicional vetorizado em pós produção, e é bem bonito. Mais do que em Donald Jovem, o que é dizer um bocado.
De fato, a melhor capa é uma rejeitada, que mostra Donald, Mickey, Pateta e o carro 313, e talvez tenha sido rejeitada por não focar exclusivamente no Donald. Compreensível, a capa final é bem mais impactante, mas seria legal ver ela como uma variante.
Seja como for, eu paguei uns 17 conto nesse gibi, e embora a qualidade de impressão seja boa, a história em si não vale tudo isso. É uma história fraca, sem sal, que tenta mais fazer o máximo de referências possível ao invés de contar uma narrativa interessante, e brincar mais com o conceito.
Talvez se tu achar por 10 reais ou menos por aí (o que é difícil, já que aparentemente essa edição só existe sob demanda), ou se a Panini publicar o encadernado com as outras histórias, pra ter uma experiência mais completa.
Isso porque eu nem li as outras, e ainda tou esperando a Panini me enviar a do Quarteto Fantástico.
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