Dr. Seuss não era um mero escritor para crianças, e se você já leu alguma coisa dele com atenção, notaria isso.
O Grinch tem uma mensagem bastante óbvia, mas com uma criatividade ímpar na narrativa, e eficaz pra sua época. O Lorax consegue explorar a consciência ecológica de uma maneira inteligente sem soar preachy (ao contrário do filme da Illumination). E tudo isso com histórias interessantes para crianças, e que tinham um valor educativo real em relação ao idioma.
Porém, o velho Geisel era mais que isso. Ele passou anos como cartunista político, e ao contrário dos Latuffs e Maurícios Ricardos de hoje, ele era de fato inteligente e sabia como provocar o pensamento crítico sem ser arrogante, retardado, ou os dois.
E pra turma que adora dizer que "toda arte é política", vão brincar de pingue pongue no inferno. Mas, The Sneetches é uma das obras mais políticas que Ted já fez, só que as comparações referentes à perserguição dos judeus na Seunga Guerra ficam mais na superfície, com uma mensagem geral apolítica e aplicável de maneira mais ampla.
De novo, baita escritor habilidoso.
Enfim, a Netflix tentou adaptar esse livro.
...
PUNCHLINE!
A história de Sneetches é pra ser familiar pra você que já me acompanha há algum tempo, porque eu escrevi brevemente sobre eles naquelas coletâneas de curtas animados russos baseados em Dr. Seuss. É um curta bem produzido, inclusive, que é capaz de contar toda a história do livro sem usar diálogo.
A história do livro conta sobre os Sneetches, que são bichos amarelos que parecem pássaros gigantes e barrigudos, mas ao contrário do Big Bird, são extremamente esnobes. Alguns Sneetches tem uma estrela na barriga, como um sinal de nascença, e eles menosprezam os Sneetches que nasceram sem a estrela na barriga.
Entra em cena o Sylvester McMonkey McBean, um vendedor ambulante que, pela merreca de 2 dólares, promete imprimir uma estrela na barriga dos Sneetches sem estrela. Há uma correria desgraçada, e logo os Sneetches que tinham estrela não se sentem mais tão especiais como antes, e pagam 10 dólares pro tal McMonkey Face pra remover as estrelas das barrigas.
Resumo da ópera, todos os Sneetches se misturaram, ninguém sabe mais quem é quem, e o Cara de Mamaco saiu podre de rico da confusão.
A mensagem é bastante clara, mas são tópicos importantes e interessantes de discutir com as crianças, mas que pros adultos, há camadas a mais. As estrelas são óbvias referências à Estrela de Davi que os judeus eram obrigados a usar, e obviamente alguém lucrou com a confusão e inocência de toda uma população.
O legal dessa história é justamente por ser uma alegoria abstrata, nunca apontando diretamente o dedo pra alguém ou algum grupo específico. Sim, há a referência da estrela dos judeus perseguidos na Segunda Guerra, mas lá era um sinal que buscava intimidar e humilhar os judeus, enquanto aqui os Sneetches com estrela são altivos e se sentem especiais justamente por terem as estrelas.
É mais ou menos o que Zootopia fez com sua analogia de racismo, não dá pra encaixar uma comparação 1 para 1.
Por falar nisso, nem escrevi sobre Zootopia 2. Bom filme, ainda quero comentar Zootopia+ algum dia.
A história foi originalmente publicada como um poema curto em uma revista, e depois expandido em uma história, e porque a Netflix aparentemente pegou direitos de adaptação do velho Seuss, nos deu um especial baseado em The Sneetches.
Pra ser completamente justo, Green Eggs and Ham foi surpreendentemente bom, em todos os aspectos possíveis, inclusive a segunda temporada. Mas eles tem focado mais no público pré-escolar com essa leva recente (que inclui Red Fish, Blue Fish e Horton), o que não é motivo pra eu, um homem de 30 anos assistir e analisar com a mesma seriedade e afinco que um Ronnie Von teria analisando uma garrafa de Refri Indaiá de Limão.
"Porque cê tá vendo e analisando coisa que é pra um público muito mais novo que você, Kapan? Você claramente não vai gostar, não é feito pra você" Tá bom, seu animal, volta pra fila do Bolsa Família e me deixa fazer meu trabalho.
A história do especial é um pouco diferente do livro, mas o elemento principal ainda tá lá. Como o livro não tem protagonista, agora temos duas meninas, cada uma de um lado do conflito Sneetch. Stella é a Sneetch com uma estrela no bucho, e vive na parte da ilha onde todo mundo tem estrela no bucho e tem tradições que envolvem recitar um discurso sobre como os Sneetches estrelados são melhores que os enluados.
Essa palavra existe? "Enluado"? O que mais poderia ser alguém consumido ou alterado pela lua? Tonho?
Enfim, ela é a única Sneetch com interesse em inventar coisas da ilha, e por isso acaba se sentindo meio isolada dos outros, cujas vidas vivem em torno de... estrelas, aparentemente. Todos os temas e enfeites e detalhes são baseados em estrelas, porque... é um especial pra pré-escolares, ué.
Até que um dia, ao passar da floresta proibida... ou seja lá como se chame, ela chega até a praia, onde encontra uma outra Sneetch, chamada Pearl. Pearl também é uma inventora e tava testando alguma modificação no barco dela, e as duas logo ficam melhores amigas, após uma sequência musical.
O problema é que Pearl é uma Sneetch de lua no bucho, mas o interesse em criar geringonças é maior que a proibição. Stella então arquiteta uma máquina pra alterar os desenhos na barriga, e Pearl a constrói. Assim, Stella visita a parte dos Sneetches enluados (que gira em torno do mar, ao invés da floresta), e Pearl visita os Sneetches estrelados, sem que ninguém estranhe uma criança nova com o mesmo símbolo na barriga sendo que são vilas tão pequenas que fariam a cidade de Ventura parecer Nova York.
O desenrolar da história não é ruim, e segue batidas narrativas previsíveis, mas a forma como eles chegam nelas é bastante criativa, mas ainda dentro do feeling seussiano.
Tem o momento de deslumbramento de Stella com a área dos enluados, que parece uma versão animada do Cadê? da revista Recreio, por ter uma pancada de coisas acontecendo ao mesmo tempo.
Mas é streaming, então tá ok, dá pra voltar e ver o que perdeu... embora eu não tenha certeza se a música é legal o suficiente pra ser suportável mais de duas vezes.
E como é um especial, o ritmo é um pouco diferente do que seria de um longa, então quando Pearl visita os estrelados, a experiência dela é o completo oposto de Stella, sendo sim, em parte maravilhamento, mas também o choque de realidade ao descobrir o que os estrelados dizem dos enluados.
O especial mantém a mesma mensagem de que somos iguais (pelo menos geneticamente; o argumento de Seuss no livro era sobre diferenças superficiais), mas num livro pra crianças curto não é necessário muito. O grande foco era a máquina do vendedor de óleo de cobra, Sylvester McMonkey McBean (cujo nome foi aproveitado pro massacote de Stella), e aqui a máquina é feita pelas duas protagonistas.
Nesse caso, é bom que não haja um vilão como o McMonkey original, embora tenham removido o conceito de que alguém tá se aproveitando de brigas superficiais alheias. Eu não sei, é uma mudança nível criar um final fechado e um vilão caricato no Lorax da Illumination, mas talvez fosse informação demais e a forma como a história tava andando era bem alheia a esse elemento do original.
A animação foca no que é mais importante, a lição sobre racismo e como trabalhar juntos, que é algo que não tinha no livro, mas que adiciona à mensagem. O clímax é previsível nesse sentido, mas a narrativa compensa por colocar as heroínas em situação de perigo, o que força a todos os Sneetches a trabalharem juntos, e até a interagirem juntos pacificamente, não necessariamente fazendo um esforço, mas obrigados pela ocasião.
Meu único problema com o especial é a animação. Não que a direção de arte seja ruim, pelo contrário, eu amo como tudo é colorido e cartunesco, e as texturas ligeiramente mais realistas (como pêlos) coexistem bem com texturas mais "desenho animado". Nem mesmo a modelagem é ruim, é um bom meio termo entre personagens que deviam ser 2D feitos em 3D.
Meu problema é na execução da animação, que por vezes é pululante demais. Não é exagerado como Cocomelon (Deus nos livre de termos outro Cocomelon), mas tá quase lá. É uma tendência do nicho, na real, e eu entendo isso. Alice's Wonderland Bakery faz isso, Star Wars Young Jedi Adventures faz isso, Horton da Netflix faz isso. Raio, até Princesinha Sofia Royal Magic (ou seja lá como vão adaptar na dublagem) vai seguir esse padrão de animação.
É um estilo de animação que tende a ser prejudicial a longo prazo em mentes em desenvolvimento, e embora o especial tenha seus momentos de quietude (o que é ótimo), às vezes o excesso de coisas se movendo na tela é esmagador.
Eu deixei de ver tokusatsu recentes justamente por esse motivo, aliás.
Deus abençoe o Prime e os envolvidos (não sei se o Gustavaum ou mais alguém do meio me lê) por trazerem os Riders Heisei pro Prime Video.
Mas seja como for, The Sneetches da Netflix é uma excelente adaptação. Mantém a mesma moral do livro, não faz tantos desvios criativos pra encher linguiça ou tentar ser modernoso, e continua soando apolítico, porque seria muito fácil pra Netflix fazer o McMonkey Bean parecido com o Elon Musk por motivo nenhum.
Só tenha em mente que ao contrário dos outros longas de Seuss, ele é feito pra crianças bem, bem, bem pequenas, e não pra família toda. O que é ótimo caso cê queira praticar o inglês, tho, nesse caso eu recomendo fortemente ler os livros do Dr., cê encontra fácil na internet e até gente lendo no YouTube, caso cê precise de uma ajuda na pronúncia.
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