A transformação de um personagem no imaginário coletivo é algo que lembra muito um cabo de guerra.
Vejam Mickey Mouse, que era um malandro de bom coração e ligeiramente malino, que se tornou o protótipo do bom mocismo até a esterilização total em Clubhouse. A companhia mudou sua personalidade e o público geral meio que aceitou. O Mickey dos quadrinhos é diferente, no entanto, e caso esse Mickey seja mudado, o público de quadrinhos não vai aceitar.
Embora ninguém mais leia gibi hoje, exceto um grupo seleto de gente de bem que acessa a Gibiteca e similares.
Com o Grinch, algo parecido aconteceu. No livro, ele é um completo desgraçado, pestilento, com um aspecto tão repugnante que te lembraria aquele seu tio torcedor do Ferroviário que trabalha há 40 anos no mesmo emprego morto e que há pelo menos 20 não vê um brilho no olhar ou um sabonete.
No especial animado de Chuck Jones, ele ainda é o completo desgraçado do livro, só que pelo menos ele parece tomar um banho ou dois, o que é compensado por uma péssima higiene bucal.
O filme de 2000 com Jim Carrey exagera completamente as características do desenho, ao invés do livro, e toda a referência que se tem hoje é o filme de 2000, porque o social media da Dr. Seuss Inc é completamente desregulado mentalmente.
Não posso debater com resultados tho.
A mesma coisa dá pra ser aplicada com o Cat in the Hat, mas é assunto pra outro dia.
O importante é que, entre o filme de 2000 e o especial de Chuck Jones, há um elo perdido. Um jogo de PlayStation 1 publicado por ninguém menos que a Konami, de todas as empresas.
E é um jogo tão repugnante quanto o Grinch do livro.
A Konami, conhecida por clássicos como Castelo da Vânia, Arma Metalizada Sólida, Parodius, A Lenda do Ninja Místico, e Inspetor Bugiganga, decidiu colocar essa coisa no mundo, provavelmente porque o sr. Carlos Konami precisava pagar a pensão e uns trocados viriam bem a calhar.
Até faz sentido, porque tie-ins de filmes na época ainda tinham a boa vontade popular, e não o estigma de jogos baratos feitos em cima das coxas como hoje.
Enfim, esse é um jogo barato feito em cima das coxas.
A história segue mais o plot do filme com nosso canadense favorito, só não usa seu rosto nem sua voz. Minha teoria é que eles quiseram deixar um meio-termo entre o desenho e o filme, teoria essa que é corroborada pelo fato do Grinch ser meio que um inventor, e perder todos os blueprints de suas invenções numa lufada de vento que deu e espalhou os projetos por toda Whoville.
EXATAMENTE, soa como um jogo digno do Willy E. Coyote, criado e desenvolvido por Chuck Jones. Eu não me assustaria se esse fosse o conceito original e a A2M retrabalhou pra encaixar num jogo do Grinch.
A A2M (que hoje é Behaviour Interactive, porque alguém notou que A2M é uma gíria pra outra coisa) era uma notável desenvolvedora de jogos licenciados em sua época. Eles tem seu número de títulos originais, mas seu ganha-pão era fazer qualquer coisa que a Disney ou Nickelodeon ou Fox jogasse no colo deles. Raios, se você desse um pacote de sequilhos e um vale-transporte, talvez eles fizessem o jogo que você quisesse.
Pra dar exemplo, eles fizeram jogos baseados em Chicken Little, Kim Possible, Transformers, Encantada, Lucas Um Intruso no Formigueiro, Happy Feet, Drake e Josh, Zack e Cody, Brilhante Victória, A Bússola Dourada, Voltron, Rango, Caça-Fantasmas, Senhor dos Anéis e Zoo Tycoon.
Eles também fizeram o jogo de Valente, que, como eu disse no meu vídeo, é melhor que o filme, o que torna meu argumento de que jogos licenciados são baratos e mal feitos meio inválido, mas...
Eu inclusive tenho um jogo deles que me atormentou muito quando moleque, e tou só esperando ter mais tempo pra poder demonstrar essa desgraça.
Mas enfim, divago.
Com todos seus projetos ACME espalhados em toda Whoville, o Grinch vai ter que pegar tudo de volta pra poder fazer suas geringonças pra importunar os whos. E quando eu digo em toda Whoville, é em TODA Whoville, inclusive as partes de floresta e lago.
| Eu não joguei até essa parte, então peguei essa imagem do Google mesmo. |
Lembrando que Whoville, segundo o filme, se passa dentro de um floco de neve, mas tanto no livro como no especial dos anos 60, é simplesmente um lugar fictício.
De novo, um meio termo entre o filme e o clássico animado.
Ou simplesmente alguém não prestou atenção no filme, ou sequer viu o filme, o que é plenamente possível.
Pra encontrar as blueprints das geringonças cê tem que bisbilhotar a cidade enquanto foge de crianças que por algum motivo estão loucas pra dar um abraço no Grinch.
Pra cê ver como os filmes da Illumination são esquecíveis. Se não fosse eu relendo meu artigo, nem lembraria que o Kenan tava nele!
Enfim, seja por qualquer motivo que as crianças queiram abraçar o Grinch, ele precisa escapar disso, então usa aquele disfarce ridículo do filme, que envolve um manto com capuz e a máscara de plástico mais feia encontrada no beco da poeira.
Não só isso, ele precisa não alertar os vigias de lugares importantes de Whoville, que cumprem seu trabalho de dormir em serviço pra servir de plot point pro protagonista.
Sim, essa é outra parte importante do jogo! Sua missão parcial é quebrar caixas de presentes dos whos, porque os desenvolvedores não sabem inglês e entenderam o verbo "steal" como "break"!
O que é estranho, porque a A2M é canadense.
Também tem uma mecânica onde você controla o cãozinho Max pra resolver puzzles, como o dos correios.
Oooohhh, Deus, como eu odeio os Correios...
...
E o puzzle dos correios.
Nos correios, é cheio de câmera, logo o Grinch não pode embaralhar a correspondência dos whos, e as portas estão fechadas por dentro. Cabe a Max entrar no duto de ventilação e se guiar pelas cores dos dutos pra achar as portas específicas onde o Grinch tá escondido.
O problema é que mesmo com esse sistema de cores, a navegação é muito confusa, a ponto de que, quando eu consegui entrar na sala onde o Grinch tava, eu esqueci completamente o que eu devia exatamente fazer ali, e acabei pegando algum colecionável aleatório que tivesse na sala (como ovos podres ou presentes quebráveis), e não fiz a missão principal.
Eu passei um bocado de tempo perdido tentando lembrar exatamente o que eu devia fazer, porque eu tava mais focado na navegação pelos dutos em si.
Talvez seja o problema de se acostumar com jogos modernos, mas ainda é uma falha de design e comunicação. Mesmo jogos dessa época normalmente te diziam em uma caixa de texto alguma ação específica da missão em que você estava, a menos que fosse uma ação corriqueira, como... sentar nas caixas de presente.
Seja como for, os ovos podres que você colhe em plantas espalhadas em Whoville servem pra... pregar mais peças nos whos, óbvio.
Além de tentar acertar as casas, outra dificuldade é acertar certos inimigos, em especial as muriçocas que são bem difíceis de acertar com o bafo de cebola do Grinch.
É um jogo dos anos 2000, é claro que isso seria uma habilidade de ataque.
Mas acertar os muquitinhos é uma tarefa frustrante, onde o fugir acaba sendo melhor do que encarar o inimigo e perder alguns pontos de vida.
A hitbox também é defeituosa no platforming. Eu lembro de jogos como Jungle Book, onde eu tinha um controle quase absoluto da trajetória do Mogli pulando entre os cipós, mesmo que isso fosse mais coisa do Tarzan. Exemplos onde a hitbox é mais permissiva a erros, e meio que entende qual a intenção do jogador ao fazer os pulos.
O Grinch tenta emular as acrobacias de Lara Croft, mas a precisão dos giros nas barras pra acertar o momento de pular é grotesca, e por muito tempo eu achei que eu fosse burro e precisasse de algum upgrade que eu não tinha, ou que o manto que eu tava usando como disfarce limitava os movimentos.
Nem um nem outro, era só o jogo não interpretando a borda da plataforma pro Grinch se pendurar.
Raios, eu não sabia que tinham considerado o peso do Grinch na física!
Pra ser sincero, eu não joguei muito o jogo, porque a experiência foi incrivelmente desgastante desde o começo. Não tem uma curva de aprendizado simples ou prazerosa, onde você consegue notar seus erros, aprender com eles, e tentar alternativas. Geralmente, só existe uma maneira de progredir, e essa maneira é ativamente impedida de funcionar pelo próprio jogo.
Os gráficos são bonitinhos e coloridos, mas os modelos dos personagens são sofríveis, exceto o Grinch, que parece o melhor que puderam fazer. Mas os whos, e até mesmo a Cindy-Lou Who (que não é mais alta que tu), parecem aqueles bonecos de argila artesanais de cangaceiros e sanfoneiros que cê compra na feirinha da Beira-Mar, só que ao invés de argila, esculpiram num pedaço de queijo.
A música é inofensiva e repetitiva, e vai se tornar insuportável em sessões longas, e eu te garanto que, se você for persistente, vai ser uma sessão longa.
Eu cheguei até a segunda fase só pra dizer que completei uma fase e que eu vi algum cenário de Whoville além da cidade. Mas mais do que isso seria persistir no erro e na minha insanidade, e Deus sabe que eu já sou brasileiro.
Eu recomendaria ficar com a versão de Game Boy Color, que tem telas de transição bizarras, mas pelo menos o gameplay não é o equivalente a tricotar usando um par de hashi.
Tecnicamente é possível, mas a que custo?
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