Luz do Mundo (Light of the World)


Eu sempre fui muito resistente a escrever sobre filmes bíblicos aqui no blog. Não por não assistir muitos (o que realmente não faço, por N motivos), ou por não gostar deles (eu gosto de alguns), mas porque meu crivo pra esse tipo de filme é extremamente crítico e o artigo não seria divertido ou interessante o suficiente.

Um desafio assim sempre é bom, mas é o tipo de coisa que me daria trabalho demais pra ter um resultado que não estaria ao nível ou estilo do resto do blog. Talvez algo pro Post Blogum funcione, mas divago. Se quiser algo mais sério, eu recomendo o canal do Ryder the Omniscient, ele fala tanto de filmes cristãos como não-cristãos.

Mas estou abrindo uma exceção pra Luz do Mundo, porque é um filme muito fora da curva, sobretudo pro que se espera sobre um filme familiar sobre a história de Jesus.

E foi dirigido por Tom Bancroft, o designer do Mushu e animador principal de Pocahontas! Hooray!

 
 

Eu acompanho o projeto desde que foi anunciado em algum momento na newsletter do Pencilish, o projeto de estúdio de animação do Tom Bancroft. Ou em alguma das redes sociais dele, eu não lembro. Seja como for, o projeto já era interessante só por ser uma animação 2D, algo que faz falta na cultura de hoje, e visualmente o filme parecia competente. Os designs eram bonitos e tinham uma personalidade própria, e eu podia confiar nos irmãos Bancroft, que eu já sabia serem cristãos genuínos.

O que faz sentido, o design de personagens (além de outros cargos de animação) ficaram sob responsabilidade de Tom Bancroft e de pessoas do Pencilish, mas a animação mesmo foi feita pelo Lighthouse, um estúdio co-formado pelo Cartoon Saloon.

Se você lê o SRT há algum tempo, esse nome deve te soar familiar, já escrevi sobre eles em duas ocasiões.  

E após descobrir isso, eu dei um tapa na testa com tanta força que fez Platão acordar por dois segundos só pra dizer "eureka" de novo.
Ou teria sido Aristóteles? Nem lembro mais. Eu devia voltar a ler minhas Recreio.

Cada personagem tem uma característica marcante que te faz lembrar quem eles são só de olhar, pelo menos os importantes e com nome. E o legal é que, mesmo que seja óbvio, ainda são designs mais sutis que o normal.


Por exemplo, Simão é apelidado de Pedro porcausa da declaração de fé, mas visualmente o maluco parece forte o suficiente pra derrubar o John Cena; Mateus é um teco gordinho, o que implica que ele é funcionário público; e Judas tem... alguma coisa errada, mas não dá pra dizer muito.

Eu de fato gosto muito do design de Judas aqui, normalmente fazem ele inegavelmente maligno, mas aqui ele parece um cara normal, só que... cê consegue sentir que ele não é igual aos outros. Não sei se é o cabelo, ou se é a paleta de cores, mas alguma coisa não bate aqui.

Agora, eu tenho um sério problema com o design do sumo sacerdote, que é justamente o oposto de tudo que eu elogiei. Ele é extremamente caricato, quase soando e parecendo um vilão de Capitão Planeta. Ele é velho, moribundo, com olheiras e, de maneira geral, parece muito um vilão inarrependível.
 

Eu sei que essa era meio que a intenção, criar um contraste entre ele e os outros sacerdotes (como Nicodemos), e eu sei que, sendo um filme família, eles tem que se certificar que as crianças menores consigam entender quem é quem.
E talvez por isso eu acho que o design dele poderia ser mais sutil. O filme faz um bom trabalho em humanizar vários personagens de maneira verossímil, esse também poderia.

Mas aí eu lembro que tem João Batista, que é retratado como meio que o Ben Gunn de Ilha do Tesouro, um velho excêntrico e ligeiramente abirobado. Digo, ele devia ser mesmo, qualquer um que passe a vida no deserto não deve ser muito normal. 

Mas aqui tem um claro motivo narrativo de ser um alívio cômico no filme, e funciona em cada cena que ele tá. Eu particularmente gosto da piadola com os sacerdotes, quando eles vão questionar se ele é o Messias.

E ainda assim, ele não é um tolo completo, e em momentos mais sérios e solenes, ele consegue soar sério e solene, sem deixar de ser ele mesmo. É um ponto doce muito bom, uma execução muito competente.

Ele é só um cara que viveu no deserto, come gafanhoto, e caçou colméias tantas vezes na vida que sabe exatamente quantos segundos leva pras abelhas acordarem e começarem a perseguir ele, não quer dizer que ele não consiga ser reverente quando necessário.


Jesus também é bastante amigável e tem os olhos generosos que você espera, mas ele não parece uma pintura renascentista idealizada que nem o filme do Franco Zefirelli. A proposta desse filme é mostrar Jesus como ele provavelmente era mesmo, o Filho de Deus, o próprio Deus encarnado, mas também homem, com suas necessidades físicas e personalidade.

Os diálogos dele com João são uma das coisas que mais vendem o filme. A intenção dos produtores era mostrar Jesus como não só o salvador da humanidade, mas também como amigo próximo, e isso é muito demonstrado no relacionamento com João.

Por exemplo, o primeiro encontro dos dois se dá quando João vai vender peixes, e Jesus pede um martelo pra terminar de consertar a bancada do peixeiro, como um carpinteiro comum. João nem percebe quem ele é naquele momento. Tem outro momento inclusive, durante o ministério de Jesus, em que mostram Jesus e João montando um banquinho pra... alguma coisa, lavar o pé de alguém, montar uma mesa, sei lá.

Em outro momento, eles referenciam João Batista, que famosamente se alimentava de mel silvestre e gafanhotos, e João pergunta a Jesus se ele também come insetos e ele meio que "nah, não sou muito chegado, quem come é meu amigo, o Batista".

É absurdamente difícil fazer uma versão encenada de Jesus que consiga soar naturalmente humano sem ser desrespeitoso, e esse filme faz um excelente trabalho nisso.


Outro ponto extremamente positivo é a narrativa em si, que é envolvente e te guia bem de um evento pro outro. Sendo um resumão da vida de Cristo pelos olhos de João (o verdadeiro protagonista desse filme), ele tem bons momentos didáticos sobre o próprio plano de salvação e como um garoto judeu da época teria entendido e recebido.

De fato, em vários momentos vemos os judeus e os próprios discípulos de Jesus comentando sobre se livrar dos romanos, de como Jesus vai ser coroado rei e livrar o povo dos impostos, mas isso não acontece e é explicado no filme, de maneira clara e mostrando que os produtores tem um excelente entendimento teológico e escatológico.

Escatológico da teologia, não escatológico tipo Boogerman, seus doentes.

Como toda adaptação de eventos históricos, algumas coisas precisam ser resumidas ou interligadas entre si, suposições do que poderia ter acontecido pra que a história flua melhor. Graças a Deus, nada no nível de Hamilton ou Patch Adams, mas ainda tem algumas notas.

Ok, as coisas boas. Tem um centurião romano que persegue João algumas vezes, inclusive é um dos momentos mais estranhos do filme, com João correndo pelas ruas e telhados da cidade, passando pelo bazar e barroando em varais de roupas estendidas, um pulo à frente da linha do pão, um giro além da espada.

...eu mencionei que os irmãos Bancroft são ex-Disney? Enfim.


Não é uma sequência ruim e é uma boa quebra de ritmo na história, só é meio estranho mesmo. Porém, esse centurião depois é ligado a um dos milagres de Jesus, e nos ajuda a ter alguma ligação emocional com ele.

Mas, durante a crucificação, um dos centuriões romanos que estava crucificando Jesus diz, ao final, "verdadeiramente, este era o Filho de Deus", e nesse filme, é esse mesmo centurião que teve o servo curado.

Narrativamente, ele já devia ter crido e confessado Jesus quando ocorreu o milagre, e não aqui. O que faria mais sentido, outro centurião ter dito a frase, e esse centurião familiar a nós retrucar com algo como "eu te disse".


Outro problema que eu tenho é com um dos sacerdotes. No filme, vemos um grupo de três sacerdotes seguindo Jesus a mando do sumo sacerdote: Nicodemos (que se converte), um sacerdote cego, e outro que é mais fiel ao sumo sacerdote. Curiosamente, esse filme não mostra Jesus curando cegos mencionados na Bíblia, e alguém deve ter percebido isso durante a produção (que foi rushada, pra ser bastante justo), e fez um dos sacerdotes ser cego pra ser curado durante a entrada em Jerusalém durante a Páscoa.

Não é um evento mencionado na Bíblia, e soa estranho, quase como uma adição de última hora. Teve uma montagem de milagres e cenas soltas do ministério de Jesus antes, poderia ter um ou dois cegos sendo curados ali.

Aí no final ele diz que é José de Arimatéia, e oferece o túmulo de sua família pra abrigar o corpo de Jesus. É um estico muito grande pra justificar uma mudança assim, embora faça bastante sentido. José de Arimatéia não é mencionado como sacerdote, mas como nobre; porém, Nicodemos ajudou no sepultamento, então... sei lá, eu creio que o sacerdote cego poderia ter sido removido e praticamente nada de valor seria perdido, tem outras formas de incluir José de Arimatéia aqui.

Outra coisa é Maria Madalena andar o tempo todo com os discípulos, que... eu meio que não lembro relato bíblico disso, e eu não duvido que tenha acontecido, mas é a primeira vez que eu vejo isso ser retratado em uma história.


Mesmo sendo mais barato que seus competidores AAA (custando 20 milhões, comparado aos 150 milhões de Zootopia 2, por exemplo), ainda é um filme extremamente bonito e bem trabalhado, visual e narrativamente. Existe todo um argumento sobre a evolução tecnológica e a perda da direção artísitca (que eu poderia fazer no Post Blogum; se inscreve lá pra saber quando sair), e esse filme prova bem o ponto.

Sim, ele usa linhas mais simples e formas geométricas, tal qual a UPA e os primeiros desenhos do Cartoon Network, mas o Cartoon Saloon se especializou nesse estilo, fazendo designs visualmente bonitos e narrativamente eficazes.
Eu tenho que escrever mais sobre eles, faz um bom tempo que eu quero revisitar Secret of the Kells e Song of the Sea.

Light of the World não é só mais um filme de Jesus, ou só mais um filme pra crianças, ou pra famílias. É uma experiência narrativa que debativelmente, chega bem mais próximo de uma versão realista de Jesus, mais que as versões em live action.

Dê uma assistida, garanto que vai valer seu tempo, se tiver disposto a alugar no Prime Video (nesse momento).



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