A Gata dos Meus Sonhos (UPA, 1962)



É irônico como a UPA ainda é referência, mesmo estando completamente falida.



Você achou que eu tivesse falando dos hospitais? Qual seu problema? Aquilo não é referência nem pro asilo mental de Bully. Tou falando sobre o estúdio de animação, a United Production Artists.

Seu ignorante! Pegue seu chapéu de cone e vá sentar no cantinho da sala!

A UPA era um estúdio mais focado numa estética moderna, mas que ao poucos foi perdendo um pouco da influência original, sobretudo quando o dono e um dos fundadores originais vendeu o estúdio pra um magnata cuja especialidade era fazer contratos e grana.

E é aí que entra Judy Garland, mas me adianto.


Fundado por animadores que saíram da Disney pós-greve, o estúdio buscava um estilo de animação completamente diferente do que Walt perseguia. Enquanto o velho Zé Valter refinava as técnicas de produção almejando o realismo, os desertores acreditavam que dava pra fazer algo mais minimalista e surrealista.

E eles precisavam, porque animação minimalista corta custos e eles não tinham grana pra funcionar direito, igualzinho a UPA.

E já que Chuck Jones inspirou boa parte da filosofia estética do estúdio, nada mais natural do que botar ele pra dirigir o segundo longa animado: A Gata dos Meus Sonhos (Gay Purr-ee), um filme que marca uma aposta final pra manter a UPA viva, que foi o resultado de um gerente que não ligava pra arte, um filme esquizofrênico que não sabe se quer atrair adultos, crianças, ou as duas faixas etárias, e ainda causou a demissão do Chuck Jones.

E also, o novo dono, Henry Saperstein, achou que colocar um star talent no longa atraria bundas nos assentos, e é por isso que é o único longa animado em que Judy Garland emprestou a voz.

Eu acho essa expressão piegas à beça, a propósito.

Sem mais delongas, vamos nos adentrar profundamente no mundo da arte moderna e políticas internas de estúdio, as duas coisas favoritas de toda criança entre 6 e 13 anos!

Yaaaay!




A história se passa na virada do século… ou qualquer coisa parecida. É o período que os grandes musicais dos anos 40 e 50 gostam de estar, talvez porque fosse nostálgico pra eles assim como os anos 80 são pra nós.

Seja como for, estamos na parte rural da França, onde uma linda gatinha branca de olhos azuis chamada Meowsette ouve uma humana falando das maravilhas de Paris, e como Meowsette poderia ser rica e famosa lá.

Iludida com a fama e o glamour, ela foge pra capital francesa, mas seu namorado Juan Tomme e seu amigo Robespierre vão atrás dela pra recuperá-la, porque…

…eu não lembro bem a justificativa dele, mas provavelmente era algo na linha de “você está louca, querida”.

Não, eu não vou lembrar como escrever o nome do gato herói direito. É algum trocadilho em francês e se um filme com nomes como Meowsette e Meowrice não faz o nome do protagonista ser memorável, eu não vou me esforçar pra lembrar.

País inventado, língua inventada, já dizia a ShoeOnHead.


No caminho pra lá, Meowsette encontra Meowrice, um gato que não tem nada de suspeito sobre a aparência, modo de falar, e como ele convence Meowsette a se tornar uma verdadeira dama em Paris com aulas de etiqueta com a sua irmã.

O fato de Paul Frees fazer uma voz de vilão que ele costumava fazer em outras produções e o gato parecer a própria imagem do vendedor de óleo milagroso de cobra é só coincidência.

Inclusive, alguns filmes que estavam (ou estarão) aqui no SRT em algum momento, como Jack Frost, Flight of Dragons, Santa Claus is Coming to Town, O Último Unicórnio, O Natal do Pinóquio, O Hobbit, O Retorno do Rei, e era a voz regular de Ludwig Von Drake, o Professor Ludovico.

Nenhum pato cientista me passa a idéia de herói. Não depois de Magic in the Mirror.
Um pardal é ok.

JãoTão e Robespierre entram em algumas furadas por motivos de serem gatos caipiras na capital, mas o próprio Meowrice também dá um jeito de se livrar deles… por algum motivo. Eu não lembro se Meowrice descobriu durante a cena da bebedeira que Jaun Taun tava atrás da Meowsette ou se foi algo relacionado à sua habilidade incomum de caçar ratos como se fosse o gato a jato do Pica-Pau.


E você achou que eu tava exagerando.

O roteiro do longa é extremamente esquecível e tem vários non-sequiturs que pouco avançam a história. Não seria nenhum problema, já que ainda é um filme pré-Star Wars e que tenta emular os grandes musicais dos anos 40, onde esse tipo de narrativa era comum. Não seria problema se os personagens não fossem extremamente monótonos e previsíveis.

É o mocinho meio lerdo que genuinamente ama a mocinha, a mocinha ingênua que entra em uma roubada por ser ingênua e bonita, o melhor amigo do mocinho que é um baixinho briguento, o vilão óbvio com o esquema criminoso óbvio de grooming e tráfico felino.

Ah é, esse é parte do plano do Meowrie com a Madame sei lá das quantas que se passa por irmã dele. Ela ensina etiqueta e arruma as gatas pro Meowrice mandar pra gatos ricos que querem comprar uma esposa.

Por que é disso que esse desenho de gatos falantes precisa!

Digo, é um baita drama que cria tensões na história, mas eu não queria ter que referenciar Felidae num filme do Chuck Jones.

A história em si não seria ruim se fosse num jogo, na real. É o básico “salve a princesa” que não requer muita personalidade dos participantes. Raio, foi assim que a franquia Mario seguiu por quase duas décadas. Mas não estamos em um jogo, e tudo que o filme tem a oferecer pra te manter engajado são os visuais.

E… pelo menos são bons visuais.





O design de produção segue bem os padrões da UPA, mas também absorvendo as sensibilidades e costumes artísticos de Chuck Jones. Meowrice parece um pouco com o Grinch e Robespierre é basicamente um Nendoroid do Tom. Também faz sentido que Jones tenha dirigido The Dover Boys at the Pimento University, um curta da Warner Bros que usou muito do surrealismo que seria marca registrada da UPA.

E os backgrounds todos tem o ar de pintura clássica, abstrata, puxando tanto o estilo modernista da época (que o estúdio tornou seu ganha-pão), como os artistas da época em que o filme se passa. De fato, o filme gasta uns bons 5 minutos fazendo uma exposição de todos os pintores reconhecíveis ou relevantes da época, como Picasso, Van Gogh (mesmo que na época ele estivesse provavelmente mendigando pra bancar seus quadros), Monet, e o cara do pontilhismo.

Citando o Pernalonga em Looney Tunes De Volta À Ação, “quando cê vai pro cinema, tem que aprender alguma coisa, né?”


E tem até uma idéia legal, que o começo do filme tem backgrounds bem pouco definidos e mais evocativos de pinturas, mas quando Meowsette descobre o esquema, os backgrounds tendem a ficar mais realistas pro padrão de animação. Mais estruturados, mais sombras, etc.

E eu passei por cima disso antes, mas… é, o Meowrice vende gatas como esposas pra gatos ricos. Tem inclusive uma música inteira (que eu JURO que é uma paródia de Candyman de A Fantástica Fábrica de Chocolate com Gene Wilder.

Exceto que Fábrica é de 1971 e A Gata dos Meus Sonhos é de 1962.


Ok, a música é sobre gatos que fazem dinheiro. Tem um subplot que o Meowrice usa gatos que se misturam às sombras pra ser os olhos, ouvidos e braços dele na cidade.
Eles são uma das coisas mais legitimamente divertidas e criativas em todo o filme, com várias maneiras de se esconder, camulfar, e até se misturarem entre si.

Minha questão é PORQUE INFERNOS GATOS PRECISAM DE DINHEIRO? Aqui os gatos parecem ser gatos normais, não uma sociedade bem estabelecida com conceitos necessariamente humanos. Geralmente temos um estabelecimento desde o começo o tipo de sociedade que temos, como em Bernado e Bianca.

Aí eu lembro que eles tem bares e uma versão deles do Moulin Rouge, completo com um trocadilho gatal porque é claro que sim.
Talvez os animais da cidade tenham conceitos de civilização mais que os do campo, vai saber.

E também, se formos considerar a construção de mundo de Cats (que poderia encaixar nesse filme), é dito que Macavity quebrou todas as leis humanas.

Então Macavity sonegou impostos.


O maior problema do filme não é a direção de arte, que é daora. Não é o roteiro, que não seria ruim pra um filme pra crianças. É que o filme não sabe se ele quer ser pra crianças ou pra adultos, o que resulta em adultos aborrecidos pela história e crianças confusas pela direção de arte.

Digo, com certeza são visuais coloridos e que fazem um bom trabalho em apresentar conceitos de pintura clássica de maneira prática e orgânica, mas ainda assim, parar 5 minutos pra mostrar os estilos de cada pintor parece um pouco demais.

Also, o ritmo é bisonho e tem um filler imenso perto do clímax, onde nossos heróis são levados por um navio que busca ouro no Alaska... ou no Pólo Norte... ou em Curitiba... que leva nada a lugar nenhum, além de uma música a mais.


Ah é, tem músicas nisso. Judy Garland faz um bom trabalho com sua voz de ouro, tanto nas canções como na atuação. Mas as letras são tão deslocadas das emoções do filme que crianças não vão conseguir ligar os pontos e adultos vão ficar igualmente confusos até entenderem alguma ligação com a história e reagir com um sincero “huh”.

Ela tem uma boa interpretação também. Embora sua voz já estivesse bem mais grave nessa época, ainda conseguia passar uma imagem de inocência quando queria, mas as canções já levavam sua notável voz grave e cheia.

Usar vozes de celebridades A+ já não era tão novidade assim, mas ainda era ligeiramente incomum a esse ponto. A Disney já havia usado Peggy Lee em A Dama e o Vagabundo, mas a prática não se tornaria padrão até Aladdin de 92, e ser completamente normalizada e até esperada da indústria com Shrek, em 2001.

O filme faz bom uso de Garland, no entanto. Não é uma mera gimmick, a personagem de fato funciona pra voz dela e eles usaram a imagem dela pra promover o filme, pena que ainda assim, foi um baita fracasso comercial.

Eu diria que foi sabotagem interna da própria Warner com raiva do Chuck Jones. Parece idiota, mas a Warner parece ter essa mania, vide Gigante de Ferro.


A parte mais curiosa desse filme é que Chuck Jones trabalhou nele sem a Warner saber. Deve ter sido algum projeto de paixão, e o cara já vivia sob constante ameaça de ser demitido (porque seus curtas tendiam a ser mais experimentais e ter animação limitada; Rover Boys sendo um exemplo primordial disso).

A divisão de animação da Warner também vira e mexe fechava ou ameaçava de fechar, e já que o trabalho dele em Rover Boys foi tão comparado com a UPA, fazia sentido tocar o projeto pra frente. Chuck e a esposa Dorothy (HAH! quais as chances?) escreveram o roteiro,Chuck produziu, e Abe Levitow, velho colaborador de Jones e diretor do curta do Mago de Id, dirigiu o projeto.

Ele fez MUITO mais coisa, mas eu fiquei mais surpreso por existir um curta animado do Mago de Id. Parece uma tirinha legal pra virar uma série animada, e tanto Chuck Jones quanto Jim Henson tentaram mas nada foi pra frente. Paul Williams tentou um filme, mas o cara do estúdio era David Begelman.

Tem um musical, tho.



"hoje não quero polemizar"
1 drink depois:


…onde eu tava? Ah, sim. Chuck Jones tava produzindo A Gata dos Meus Sonhos sem a Warner saber, como um projeto paralelo, enquanto ele tinha um contrato de exclusividade com a casa do coelho. Ele esperava que a Columbia pegasse o projeto pra distribuir, e assim talvez nem usar o nome próprio nos créditos do filme.

Aí a Warner pegou direito de distribuir o filme, descobriu que Jones tava moonlightning e demitiu ele depois.

Os Irmãos também fecharam sua unidade de animação, e Chuck contratou o pessoal liberado e abriu um estúdio novo, que foi fazer coisas como The Phantom Tollbooth, e os especiais baseados em Dr. Seuss, Horton Hears a Who e How The Grinch Stole Christmas, além de curtas de Tom e Jerry, uma série que Chuck pessoalmente detestava.

Ironicamente, a Warner comprou parte da biblioteca da MGM, inclusive Tom e Jerry.

Hoje, o filme não tá sendo distribuído em lugar nenhum, porque ninguém lembra desse filme (a não ser fãs de animação em estado terminal), e o nome do filme ter uma palavra que caiu em desuso não ajuda.

Mas hey, pelo menos é quase um vislumbre do que poderia ser o longa animado de Cats!



Meu Deus, como eu quero viver nessa timeline alternativa…

O filme também teve uma adaptação em quadrinhos, com um final ligeiramente diferente, onde o ranzinza Robespierre arranja uma gatinha pra ele. Supostamente era o final original do filme, e dá pra ver resquícios disso no produto final, mas eu não acho o gibi todo, então não dá pra checar.

Tudo que temos são fotos em uma wikia, e fotos ainda tão desfocadas que fazem aquelas filmagens clandestinas dentro de lojas maçônicas parecerem Avatar em 4K.

Também teve um jogo pra tabuleiro, porque É CLARO QUE TEVE.


A Gata dos Meus Sonhos não é um filme ruim, por nenhuma métrica. O design de produção é charmoso, os personagens não são detestáveis, e a história básica é o mínimo suficiente.

Mas a menos que cê tenha um interesse muito forte na animação pela animação em si, pouca coisa vai te agarrar aqui. É o tipo de filme que vale a pena ver pelo menos uma vez na vida, porque é uma das melhores coisas que a UPA tinha a oferecer.

E se você assistir filme enquanto rola o feed de mídias sociais e não presta atenção no filme (sobretudo um filme "mais estilo do que substância"), que seu wi-fi tenha mais quedas que o Neymar, e que seu dados móveis se movam pra bem longe de você.

Seu BILTRE!

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