Aquela série 3D do Homem-Aranha
Aquela série 3D do Homem-Aranha que a MTV exibiu em 2003 é uma das animações mais esquecidas da era pré-MCU.
Vocês jovens não fazem idéia do que era um mundo pré-MCU.
Quando eu era moleque, haviam quadrinhos de herói pra comprar, mas eles eram muito complexos (dependendo da idade), ou difíceis de achar, dependendo de onde você morava.
A geração anterior à minha tinha acesso a uma enxurrada de títulos, mas o pessoal da minha idade conhecia apenas alguns personagens, seja porcausa do jogo do Homem Aranha de SNES, ou pelo desenho do Batman do Bruce Timm, ou porque ganhou um boneco de camelô da tia, ou pelos jogos de luta, ou se herdaram a coleção de um tio cuja esposa o obrigou a se desfazer porque não queria estar casada com um "crianção", e ao invés de pedir o divórcio, acatou as ordens da patroa e cortou fora suas bolas.
Eu tive a sorte de presenciar um momento de transição, quando super-heróis eram relativamente familiares ao grande público, mas também havia uma certa resistência do mainstream.
Raios, o trailer do primeiro filme de X-Men vendia o filme como uma ficção científica, e fez questão de botar todo mundo num collant preto, porque ninguém levaria a sério um monte de gente colorida trocando sopapo numa história que tentava tratar de temas sérios. O que é isso, Power Rangers?
Digo, já tinhamos alguns filmes de super-herói, mas os filmes do Superman foram decaindo a cada nova adição, tal qual os do Batman... e às vezes você tinha algo como Steel.
Mas o filme que mais ajudou o público normie a receber o conceito de super-herói, definitivamente, foi Homem-Aranha de Sam Raimi. Ele tem momentos de drama e ação com uma camada de galhofa típica de quadrinhos que foram... relativamente bem executados! Relativamente!
E é claro que a Sony/Columbia/Coca-Cola tinham que manter os fãs cativos e novatos entretidos com o personagem até o próximo filme, e além dos jogos tie-in e reprise da série dos anos 90, bancaram uma série animada nova, especificamente pra uma demografia que talvez nunca fosse se aproximar de heróis fantasiados: a MTV.
E... tem mais história por trás disso.
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Antes de Sam Raimi nos presentear com sua versão do Cabeça de Teia, a Marvel iniciava um universo paralelo nos quadrinhos.O Universo Ultimate foi feito pra ser mais amigável para novos leitores, que queriam começar a ler quadrinhos de herói, mas não queriam parecer NERDS nem acompanhar uma cronologia que já durava há décadas, algo que exigiria não só desembolsar muita grana pra colecionar gibis específicos, mas provavelmente assistir a algumas palestras, tirar um doutorado, e ter que interagir com NERDS.
O universoUltimate era pra ser mais jovem, descolado, com os heróis encarando altas aventuras e os desafios da juventude! Personagens que conversam com o público JOVEM atual e são fãs de luta-livre profissional!
Não, sério, tem um dos amigos do Flash (Thompson) que usa uma série de camisas referenciando a WWE.
Quando moleque, comecei a colecionar o Homem Aranha e fui jogado na saga O Outro, mas uma vez peguei uma edição do Ultimate por engano e era bem diferente, e tudo que eu lembro era ter a White Sable.
Fora isso, duas anedotas que o Amer, do Blog do Amer, conta em algum artigo dele.
Uma era que, em um momento, o Wolverine e o Peter trocavam de corpo, e a primeira coisa que o Wolverine fazia era dar uns pega na Mary Jane, que tinha entre 15 e 16 anos. A outra era que, ao ir pra uma palestra obrigatória da faculdade, lia uma edição do Ultimate e uma garota pediu pra ler também, e tudo que ela conseguia conversar era sobre qual garota Peter ia ficar.
Isso é importante, porque essa série do Homem-Aranha começou como uma adaptação desse universo. Pois é!
O roteiro do piloto assinado por Michael Brian Bendis (também escritor do Aranha no Ultimate) era muito mais edgy, o que não seria estranho, já que o roteiro original roteiro original que James Cameron escreveu nos anos 90 pro Aranha também era bizarramente edgy, incluindo xingamentos dignos de um filme do Tarantino e Peter e Mary Jane fazendo o tango do diabo na ponte do Brooklyn... com a bênção de Stan Lee.
Pois é. Teve uma época que fazer filmes edgy baseados em quadrinhos e desenhos era moda, pergunta pra Archie Comics e pra Hanna Barbera.
Embora tenha começado com essa intenção, aos poucos a idéia foi se aprimorando. Homem-Aranha agora era uma propriedade popular e rentável, sobretudo com jovens descolados normies, consumidores de Pimp My Ride e Viva La Bam. Então fazia sentido manter esse público recém-formado com o personagem em mente.
Entra em cena a MTV, que na época já estava bem distante do que sua sigla significava, assim como o Boomerang e o Cartoon Network anos depois.
A MTV co-produziu e exibiu essa série, e por isso algumas mudanças drásticas foram feitas, a começar pelo setup, que sim, referencia muito o filme de 2002, mas... faz algumas alterações.
Como não tem um arco inicial, dá pra se jogar em literalmente qualquer episódio. A ordem do Prime tava errada anyway, e pelo que eu entendi, a de exibição original também... ou a do DVD... sei lá, essas coisas são meio confusas.
Enfim, Harry Osborn e Peter Parker dividem um apartamento, como em algum momento do filme, mas eles cursam a faculdade. Peter é o maluco gente boa e meio franzino, enquanto Harry é mulherengo e bon vivant, e costumeiramente anda por aí segurando uma taça de martini por motivo nenhum.
Ainda assim, ele culpa o Homem-Aranha pela morte de seu pai, Norman Osborn, que lhe deixou como presidente da companhia. E agora que eu notei, não tem nenhum flashback pro momento que o Aranha deixa o corpo de Norman/Duende Verde... ou da morte de Norman. Huh.
Completando o elenco principal, nós temos Mary Jane Watson, que não tem muita função narrativa exceto ser a garota do grupo e interesse româncito do Pedro Prado, já que Harry e MJ tiveram um caso e assim como no Pará, continuam bons amigos.
Não que a MJ fique atrás, ela continua tentando carreira de atriz e sai com qualquer mameluco com um porte físico um pouco mellhor que o gafanhoto que é Peter.
Indy é uma personagem legal tho, eu sempre gostei dela quando moleque, mas talvez seja porque ela prendia o cabelo que nem uma alien humanóide em seriado japonês dos anos 80 prenderia.
Na real, ela sempre pareceu legitimamente gostar do Peter e demonstrar isso em toda oportunidade que tinha, o que era mais direto que o chove não molha que Peter e MJ tinham.
...
É, série feita pro público da MTV, como deu pra notar. Se não tiver SHENANIGANS de relacionamento, explosões e intrigas com terroristas russos não são o suficiente pra prender a atenção de jovens adultos com tanta personalidade quanto uma bola de tênis.
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Tem uma ladra, Talon, que aparece tentando roubar diamantes (ou jóias, ou placas de vídeo, ou Beanie Babies, ou qualquer outra coisa igualmente valiosa), até que é impedida pelo Homem Aranha, que fazia sua ronda noturna enquanto ignorava obrigações estudantis, como todo bom super-herói.
Só que no dia seguinte, Harry apresenta sua nova namorada aos amigos, e Peter a reconhece de imediato... porque não é todo dia que se esbarra com uma garota de cabelo roxo, pele escura, curvilínea, e com um vício em adrenalina que faria Jeff Hardy mandar ela se aquietar e ler um livro.
O dilema entre Peter tentar alertar seu amigo dos perigos das parditas aventureiras e se expor como Homem Aranha e potencialmente levar um copo de martini quebrado no pâncreas do dito melhor amigo é algo que soa muito com o tipo de história que seria contada nos quadrinhos, e é engajante o suficiente.
Eles conseguem desenvolver bem os personagens e suas motivações... pra episódios soltos de 20 minutos... e mesmo que as motivações não sejam muito lógicas, e o diálogo seja um pouco engessado às vezes, mas jovens adultos agindo como adolescentes, o que você esperava?
Obviamente, essa personagem nova era pra ser a Gata Negra, mas pelo que eu entendi dos bastidores, eles não tinham os direitos necessários pra certos personagens ou o aval da Marvel. Outras mudanças incluem os já mencionados terroristas russos, liderados por Sergei, que devia ser a gangue do Abutre ou algo similar.
Eu não sei se o Abutre é originalmente russo, tho. Nos filmes ele é o Batman, mas aqui os terroristas usam jet packs e rifles a laser. Se era pra ser um knock-off do Abutre, pelo menos é original o suficiente pra ser algo próprio.
Outros personagens tiveram o mesmo processo, como Elektra, que serviu de base pra uma guerreira samurai imorrível; e Turbo Jet, que é baseado em dois personagens que eu nunca ouvi falar e só devem ser familiares a sujeitos que pareçam o Comic Book Guy. Nem os manés de Big Bang Theory devem lembrar desses personagens e talvez associem Turbo Jet ao Flash, mesmo sendo de outra editora.
Porém, também temos rostos familiares. O Lagarto aparece, Rei do Crime surge com a voz e aparência do Michael Clark Duncan (claramente tentando ligar ao Demolidor com Ben Affleck), Kraven, Silver Sable, e Electro, que agora é um colega do Peter & Cia.
Tem uma vilã que é completamente nova, e essa sim tem algo interessante que é pouco explorado nos quadrinhos. Ou é bem explorado e eu que tive o azar de nascer humano e não um vampiro imortal com tempo de sobra pra ler quadrinhos, vai saber.
Christina é uma fã abilolada do Homem Aranha que, após um acidente envolvendo um escorredor de macarrão e equipamentos eletrônicos, começa a ouvir vozes vindo dos recortes de jornal sobre o Homem Aranha, onde ele declara seu amor incondicional a ela e que ela precisa chamar a atenção dele de alguma forma, ou se colocando em perigo, ou colocando alguém que ele ama em perigo.
Os B-plots geralmente envolvem alguma treta do Peter com MJ, ou protestos de alunos descoupados entupidos de maconha, ou Harry tendo que lidar com alguma decisão de business que pode ou não estar ligada ao plot principal. Geralmente eles fazem um bom trabalho pra desenvolver melhor os personagens, mais focados no relacionamento do que qualquer outra coisa.
Ainda assim, tem plots memoráveis. O arco do Electro é trágico e dura vários episódios, sem deixar cansar tanto e dando um final digno pro personagem. Max Dillon é um moleque meio tipo Peter Parker, mas sem a inteligência e senso de auto-preservação. Ele leva um trote dos colegas e acaba tendo um acidente elétrico, e usa isso pra se vingar dos bullies.
Tem uma situação em que o pessoal da TV é feito refém pelos tecno-terroristas russos (uma descrição que exala os anos 2000, não sei explicar), só que Peter é um dos reféns, e obviamente não pode se transformar no Homem-Aranha.
Não é um plot tão original assim (eu tenho quase certeza que já vi ou li algo parecido em outro lugar, provavelmente com o Superman), mas sempre é um desafio criativo botar esse tipo de história pra frente.
E claro, ainda termina com Indy e MJ forçando Peter a fazer uma decisão por alguma das moças, porque precisamos atrair aquela demografia extremamente específica que diria "Peter é mó mané, ele devia escolher as duas e mandar elas escolherem os dias no calendário".
Aliás, é um dos motivos que não vemos Tia May, e um dos motivos da professora da universidade parecer tão jovem, e eu teorizo que um dos motivos que o vilão careca e narigudo de meia-idade acabou virando um russo que poderia integrar uma banda de nu metal.
A série é uma co-produção da Marvel, Sony e MTV, e as imposições criativas de cada parte exigia alguma coisa diferente, o que limitava muito os produtores. Uma delas era de que a série não deveria ter NENHUM personagem velho, porque a MTV era um canal JOVEM ANTENADO LIGADAÇO, então colocar a senhora May seria um desperdício de tempo e dinheiro que poderia ser melhor investido numa personagem com tantas curvas quanto Interlagos e tanta roupa quanto uma apresentadora infantil brasileira dos anos 90.
Claro, haviam exceções, porque eu creio que se fizessem uma série do Homem-Aranha sem J.J.J. haveriam rebeliões nas ruas. Digo, é o que dava pra ser fazer numa época em que a internet ainda tava engatinhando.
Aliás, o Peter tem uma IA que ele conversa constantemente pedindo conselhos pra seja lá qual for o problema da semana. Irônico pensar numa época onde só alguém extremamente inteligente e tecnologicamente estudado como Peter Parker teria uma genIA pra conversar, enquanto hoje o jovem médio não consegue exalar uma gota de pensamento próprio sem consultar a pior LLM do mercado se achando o tal.
Deus, como eu sinto falta de quando a tecnologia era só um sonho distante e fantasioso.
Anyway, porcausa dessa mesma co-produção, vários personagens também não puderam ser licenciados, ou foram altamente alterados. Não sei bem como funcionava os direitos de personagem na época, mas é estranho ter o Rei do Crime negão, mas ter que alterar a Elektra até ela se tornar um rascunho do que um dia já foi.
Talvez pelas próprias limitações tecnológicas, inclusive. Cê vai notar que nenhum personagem tem cabelo longo, e se tem (como Indy e Silver Sable), é devidamente preso o tempo inteiro, Mary Jane usa o corte meio "Cássia de Chocolate com Pimenta", e por aí vai. É meio esquisito assistir quando cê nota isso, cê começa a ficar procurando personagens com cabelo longo o tempo todo.
O design dos personagens é ABSURDAMENTE diferente do filme de Sam Raimi, então é complicado acreditar que a série se passe no mesmo universo, referenciando constantemente os mesmos eventos.
"Ain Kapão mas isso é porque cê é adulto, criança nem nota isso, você é um fascista e racista!" Pra início de conversa, amarre uma pedra de moinho no pescoço e se atire da Ponte dos Ingleses. Em segundo lugar, a série foi feita pra um público mais velho, e é por isso que eles podiam xingar um pouco e até ter cenas onde Mary Jane se chateava brutalmente com Peter porque Indy passou a noite lá, implicando que eles fizeram o tango do diabo.
E em terceiro lugar, mesmo quando eu via a série quando moleque, eu notava isso. Se cês acham que criança não nota esse tipo de inconsistência, é porque não convive com criança, ou nunca foi uma criança que cresceu rodeada de mídia.
Ainda assim, não são designs ruins. Harry combina com o bon vivant que eles querem passar, tendo um smug constante no rosto; Mary Jane continua linda e com um olhar penetrante de quem quer tirar uma confissão de você ou passar uma bronca (porque essa é meio que a dinâmica aqui), e Peter é franzino, magrelo, com cara de tonto.
Eu também gosto dos personagens secundários e recorrentes, exceto talvez a Indy, que às vezes soa muito exagerada por algum motivo. Sei lá, não é ruim, mas me soa muito à frente de seu tempo. Ela me parece indiana, mas a forma de vestir parece um esteriótipo japonês às vezes.
A animação em si também é... boa. ...ok, preciso me delongar um pouco aqui.
Famosamente, ReBoot foi a primeira série animada pra TV feita inteiramente no computador (ou pelo menos a mais notável, salvo engano), então muita coisa era perdoável. Beast Wars também pode não ter envelhecido bem graficamente, mas os roteiros ainda eram divertidos, ousados, e até ofereciam serviço aos fãs de Transformers vez ou outra.
Dito isso, a série do Aranha também teve seus avanços tecnológicos que podiam não soar impressionantes (mesmo pra época), mas eram avanços mesmo assim.
Quase toda trivia que eu leio sobre a série, eles mencionam a Martini Shot, que era uma tomada tecnicamente difícil e impressionante e tinha a função narrativa de te pegar desprevenido, ou só ser uma transição criativa de uma cena pra outra.
A proverbial Martini Shot era o Harry botando uma azeitona no martini dele, mas a narrativa tentava te fazer pensar no meteoro mencionado na cena anterior. É dito que essa cena foi uma das mais complicadas do episódio a ser feita, e por isso o primeiro episódio teve que ser atrasado algumas semanas.
Depois disso, ficou-se decidido que todo episódio deveria ter uma transição assim.
Sabe, "tecnologia inspira a arte, e arte desafia a tecnologia".
A série usa muitos truques de perspectiva e fundos falsos, de maneira quase teatral, e é bem legal de ver que, nesse sentido, envelheceu bem. Claro, o design de produção e os modelos em cel shading podem ser estranhos, a movimentação dos personagens por vezes é meio... flutuante, mas é algo perfeitamente acostumável.
Os roteiros são competentes ao que se propõem (embora às vezes entupidos de clichês), e as cenas de ação são divertidas e criativas. Muitas vezes, o próprio design de produção em alguma cena joga a favor das limitações, colocando nosso herói em lugares escuros iluminados apenas por algumas luzes de neon.
Não só dá uma estética mais próxima dos quadrinhos, como esconde imperfeições técnicas, é bem daora.
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Infelizmente, a série termina com apenas uma única temporada, com dois episódios-finale. São bem interessantes na real, com dois gêmeos que criam ilusões na mente de seus alvos e os controlam pra que eles cometam crimes.
Eles usam seus poderes em Peter, o que leva a conclusões dramáticas que fazem o jovem questionar sobre o peso da responsabilidade de seus poderes.
A série ficou disponível por um tempo no Disney+, mas logo voltou pra... Claro TV, eu acho. Depois foi pro Prime Video, onde passou tipo dois meses e agora não faço idéia de onde esteja.
Seja como for, você é inteligente o suficiente pra não depender de streaming, caso a série não esteja em lugar nenhum. Lugares como o Web Archive e o YouTube devem ser seus amigos pra procurar a série, que aqui oficialmente se chama "Homem-Aranha: A Nova Série Animada".
Also, teve uma linha de brinquedos baseada na série, e parecem bem-feitos, mas me incomoda profundamente o fato que o pacote foi projetado de cabeça pra baixo.
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