Mestres do Universo 1987 vs 2026: Do Fracasso Cult ao Filme que Finalmente Entendeu He-Man


He-Man é uma franquia que não precisa de apresentações, assim como Chaves. Se você mora no Zimbabwe e não tem acesso a eletricidade, talvez não conheça as aventuras do príncipe Adam e sua trupe de amigos cujos nomes consistem em trocadilhos imbecis.
É uma obra simples, mas complicada, que nem Cats.

Eu sempre gostei de definir como Conan no Espaço, mas é um pouco mais que isso. É um sci-fi pulp brinquedável, algo em meio termo entre Flash Gordon e Star Wars. 

Temos elementos clássicos de fantasia sword and sorcery, como o bárbaro fortudo usando roupas sumárias, porque armadura é coisa de covarde; monstros com designs familiares, mas memoráveis; beldades que são fortes, mas não tanto quanto nosso protagonista com músculos tão desenvolvidos que fariam Oba Femi parecer o Pequeno Hiawatha; e um vilão vindo do quinto dos infernos cujo único propósito é a dominação total e irrestrita ao mundo.

E ainda assim, temos raios laser, robôs, prédios que tiveram a mesma empreiteira dos Jetsons, e veículos vendidos separadamente.
É absurdo, é irreal, é exagerado, é tudo que um garoto de 10 anos pra baixo gosta, e é isso que o torna divertido.

Menos pra mim, porque quando mais novo eu sempre preferi She-Ra. Eu não fui ver He-Man direito até meus 17 anos, graças ao finado Tooncast, que descanse em pança. E ainda assim eu sempre achei meio meh comparado às aventuras de Adora, irmã do protagonista.
Mas isso é assunto pra outro dia.

O importante é que, nos anos 80, a Canon produziu um filme de Mestres do Universo, tendo Dolph Lundgreen como He-Man e uma jovem Courtney Cox como a mocinha. E Frank Langella como Esqueleto.

Eu sei, o nome não significa nada pra vocês, e minha pausa dramática perdeu todo o efeito. Mas ele é um ator de calibre que já interpretou Nixon uma vez.
E o Esqueleto foi o papel favorito dele.
Pois é.

E aproveitando o lançamento do novo filme com o príncipe daquela Cinderela zoomer, a nãoVeronica de Riverdale do CW, e Idris Elba, eu decidi que era hora de fazer um dive na franquia.

Por "dive" entenda "não é um deep dive e eu só vi o suficiente pra que as referências do filme façam sentido, mas aprendi umas coisas interessantes no caminho".

Mas primeiro, vamos ver como a franquia foi retratada nas telonas em seu prime.
...não o Amazon Prime, o prime de época, ápice. Vocês precisam ler um dicionário de vez em quando.


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Masters of the Universe (Mestres do Universo, 1987)


Uma coisa que sempre me atraiu mais pra She-Ra do que He-Man é que, em He-Man, o vilão tentava derrotar os heróis, enquanto em She-Ra, o vilão já havia triunfado e os heróis eram parte da resistência. Talvez porque eu cresci vendo Sonic SatAM, onde Robotnik havia dominado Mobius, e era óbvio que ambos beberam de Star Wars.

O whiplash de ver uma história mais séria onde os inimigos invadiam uma escola e queimavam livros no mesmo episódio em que tinha um troll colorido escondido era surreal demais.

Ok, se tu conhece o mínimo sobre a série animada da Filmation, talvez cê estranhe o filme.

 

O Esqueleto dominou o Castelo de Greyskull, usando uma arma de teleporte inventada por um anão cabeludo cujo nome me lembra a forma que meu professor de álgebra da nona série chamava o moleque com nome estranho. He-Man, Teela e o Mentor resistem à invasão bravamente, e no meio do processo encontram o tal anão, que lhes mostra a engenhoca.

Esqueleto descobre onde nossos heróis se escondem, e em um momento de reação, eles ativam o teleportador que os leva à distante e mágica terra chamada Nova Jersey.

Lá encontramos Courtney Cox, que perdeu os pais há um ano e ainda não conseguiu superar o luto, prestes a se mudar pra outro estado porque... motivos... E seu namorado metido a músico tentando convencê-la do contrário, porque é uma decisão idiota e que não agregaria nada a ela.

Mas os planos são interrompidos quando eles encontram a máquina de teleporte, que curiosamente funciona à base de sons, e não dígitos de números ou letras, como alguém normal faria. E ora vejam só, o namorado da Courtney Cox é músico! Quais as chances?

He-Man, Teela e o Mentor se separam pra encontrar a engenhoca antes do Esqueleto... ou algo assim, e esbarram na menina, seu namorado músico, e um policial que desistiu de ser diretor de escola e foi buscar uma carreira menos estressante.

O exército de esqueleto invade Nova Jersey e cabe a He-Man e um par de adolescentes com problemas emocionais salvar a galáxia, porque CINEMA!

 
É, é completamente diferente do que se espera de um filme baseado no desenho. Setups completamente bisonhos, maior parte do filme se passa na Terra, Etérnia parece o deserto do Seridó, e o fato de eu estar estranhamente mais investido no drama da Courtney Cox que na batalha épica entre o bem e o mal parece... errado.

Ter que pesquisar sobre a franquia tem sido fascinante pra mim. Eu já conhecia a série de 2002 (lembro vagamente de ver alguns lapsos quando moleque, embora não muito), e comecei a ver a série da Netflix (a boa, não a catástrofe do Kevin Smith). A lore de He-Man é algo curioso, mas nada diferente pra quem tá acostumado com heróis sendo rebootados a cada semana nos quadrinhos.

Embora o filme tenha sido lançado depois da estréia e estabilização da série animada, o filme em si foi baseado na linha de brinquedos, o que explica um bocado. Explica mais ainda quando você lê os quadrinhos de MotU pré-Filmation.

Eu pretendo fazer um artigo sobre isso no Post Blogum (se inscreve lá, aproveitando a viagem), mas só pra ter uma idéia do quão diferente é do produto televisivo: a história conta sobre duas espadas do poder, que precisavam se unir pra então canalizar o poder de Greyskull, e He-Man era ajudado por um Mentor sem bigode e uma Teela loira. 

E a Teela era clone da Deusa, personagem que foi substituída pela Feiticeira posteriormente, mas detalhes. Nada é tão estranho quanto ver o Mentor sem bigode, é como se ele tivesse perdido metade da força. E já dizia o Amer, caras bigodudos são centenas de vezes mais fortes que humanos normais... pelo menos um bigode de respeito. Mais Tom Selleck e Cesar Romero, menos John Waters e seja lá o que sojados usem nas faculdades de humanas.

Eu tenho uma imagem muito definida em mente, mas não consigo lembrar o nome.


Anyway, meu entendimento é que o conceito básico de He-Man é "Conan no Espaço", e os produtores do filme seguiram com essa idéia, sendo mais próximo das aventuras de um Bárbaro perdido em Star Wars (pré-prequels), e... no papel, a história não é ruim.

Porém, a Canon era um estúdio notavelmente low budget, então supondo que o orçamento de Mestres do Universo foi menos do que o McDonald's gasta pra implantar um quiosque de sorvetes, um compromisso teve que existir.

A história base seria sobre bárbaros tecnológicos em um mundo onde magia e ciência coexistiam, mas a maior parte dele se passaria na Terra. O que não vai de encontro com a lore de He-Man, já que no Especial de Natal eles vem ao nosso mundo e o Esqueleto aprende sobre o Natal, e a própria mãe do He-Man é uma astronauta humana que se perdeu no espaço e foi parar em Etérnia

É basicamente o plot de Farscape, aliás. Só que sem uma nave espacial viva e fantoches de borracha.
...ok, temos fantoches de borracha no filme, mas não vem ao caso.

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Já que o filme foi mais baseado na linha de brinquedos do que no desenho, é normal que não tenhamos vários elementos que tornaram He-Man ser o que é hoje, como o Gorpo, as lições de moral, e o tom de aventura sci-fi. Talvez (e aqui eu tou especulando fortemente), fosse uma tentativa da Mattel de revitalizar o interesse na franquia.


A essa altura, o desenho e a linha de brinquedos haviam despencado vertiginosamente em termos de rentabilidade e popularidade, já que o público-alvo cresceu e agora tinha outros interesses, como rock, filmes de terror, e a vizinha amiga de infância que resolveu mudar o corte de cabelo e de repente parece a personificação da beleza idealizada descrita por Camões.

Transformar a estética cartunesca pra algo mais realista e dramático parecia uma boa estratégia, exceto que nenhum dos personagens se parecia com os personagens que a molecada cresceu vendo. 

É como se fizessem um live action de Dragon Ball onde a Bulma tem só um fio de cabelo azul e Goku parecesse o colega drogado do Clark Kent em Smallville. Ou um filme de Mario Bros onde o Toad é um punk de Mad Max. Ou até, sei lá, um remake de Pequena Sereia com a Ariel negra.

Adaptações mudam elementos, mas é necessário um equilíbrio. Alice do Burton consegue se safar porque não é baseado no filme de 51, mas em temas dos livros, e pouca gente entende isso. 

Só que Alice é uma coisa, e He-Man é outra.

"Mãe, eu quero ver Império Contra-Ataca"
"Nós temos Império Contra-Ataca em casa"

 
A única forma de tirar um mínimo de fator entretenimento é assistir num vácuo e esquecer que é um filme do He-Man. Por duas horas, ignorar que o desenho, os quadrinhos, raio, até a linha de brinquedos existe. É um exercício criativo interessante, já que muitas vezes é assim que os executivos pensam.
Não é o ideal nem o certo, mas é um exercício mesmo assim  

Porque cês acham que X-Men foi vendido como um sci-fi em 2000? Alguns conceitos comuns aos fãs de quadrinhos (ou séries de TV, ou jogos, o que seja) são completamente alienígenas ao público normie, que tem mais o que fazer do que encher seu tempo com diversão, e enchem seu tempo com coisas mais sérias e maduras, como brigar sobre política com parentes, encher a cara de vinho São Brás, bater na esposa, e apostar no jogo do bicho.

O que Mestres do Universo tentou fazer foi adaptar uma linha de brinquedos a algo que poderia ser palatável a um público maior, e talvez até tornar a IP menos ridícula aos olhos do seu público alvo crescido. Algo muitíssimo parecido com o que a Disney vem fazendo há quase 15 anos.

A saída foi fazer uma história praticamente nova com ares de sci-fi pulp, com bárbaros pulp, com riscos reais, já que eles trouxeram a batalha galática pro teu quintal, limitados por um baixíssimo orçamento. Um orçamento tão baixo que o estúdio quase não liberou verba pra filmar o clímax do filme.
Pois é.

E como uma história de guerreiros extradimensionais que param no nosso mundo e causam um caos tentando voltar pra casa, não é ruim... mas também não é bom.


A história parece perdida em alguns momentos, e passamos muito tempo desenvolvendo os personagens humanos ao invés dos heróis eternos. Se não tivesse atrelado à franquia, talvez o filme tivesse mais liberdade de fazer os heróis como quisesse, e misturar melhor o plot humano ao plot de Etérnia. 

Ainda seria um fracasso e talvez só fosse lembrado hoje por um punhado de nerds e insones-depressivos que pegaram o filme passando aleatoriamente no Super Cine, mas o produto em si seria potencialmente melhor.

O plot dramático não é interessante o suficiente, mas os atores se esforçam pra que gostemos deles, o que funciona. Vemos Courtney em seu dilema semi-inexistente e como é dolorido pra ela deixar a cidade, e seu namorado em processo de aceitação, mas ainda tentando reverter a situação.

Os eternos, por outro lado, tem tanto carisma quanto um chiclete Ping Pong do Pica-Pau. Teela é a guerreira durona mas que, por algum motivo, acha o ato de comer animais inaceitável. Mentor é um líder militar focado, e He-Man é o herói estóico que não faz nada de errado.

Talvez porque Dolph Lundgreen tivesse um sotaque forte e o roteiro evita pôr palavras em sua boca que iriam sair tão compreensíveis quanto Sylvester Stallone recitando um discurso da Dilma, ou porque é o herói que o público-alvo deveria se imaginar no lugar.

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Por outro lado, como mencionei, o orçamento era pífio, e talvez os estúdios tentassem um tax-write-off, um costume tão antigo quanto o tempo. Dá pra ver na máscara do Frank Langella, que parece ser feita de látex com um remendo feito pela avó de alguém que visitava o set.
Curiosamente, ele disse ter sido o papel mais divertido da vida dele, e que ele amou fazer o personagem. Pra alguém acostumado a dramas sérios e seja lá o que "Agora Você Vê" tenha sido, deve ter sido um barato mesmo.

Não dá pra dizer o mesmo do resto dos bonecos, que sofriam com fantasias pesadas, difíceis de mover, e que ao final do dia podiam encher garrafas de suor. De novo, uma história tão antiga quanto o tempo.


Talvez seja um filme mais divertido de assistir com amigos tirando um sarro, porque muitos elementos não fazem sentido ou são simplesmente bizarros de testemunhar. Em que outro filme você teria um anão barbudo dirigindo um Cadillac cor-de-rosa, ou nosso herói bárbaro de tanguinha preso por correntes sendo chicoteado?
...consigo pensar em alguns, mas nenhum que seja divertido de assistir com amigos.
Ou que tenham uma linha de brinquedos.

Ah, sim! Verdade! Esse filme não teve uma linha de brinquedos.
Quer dizer, teve, pero no mucho. Saíram alguns bonecos depois da época, e um deles acabou sendo reaproveitado em outra linha. Seja como for, não foi uma linha que recebeu muita atenção.

Mestres do Universo é um daqueles filmes que é uma bagunça total, mas que é um desastre tão fascinante que ainda é recomendável uma assistida. O diálogo é meio truncado e goofy, mas os personagens goofy tem um certo carisma torto. A história tenta ser séria, mas os stakes não são muito perceptíveis. 

O design de produção é completamente o oposto de qualquer encarnação prévia da franquia, mas ainda é extremamente oitentista e funciona em alguns aspectos fundamentais. Por exemplo, o Castelo de Greyskull é a fonte do poder. Ele não é necessariamente algo bom ou ruim, depende de como você usa. Tendo isso em mente, o designer de set fez a parte superior com figuras angelicais e a parte inferior com monstros.

É um conceito de construção de mundo aplicado a algo palpável, mas... sei lá, todo o resto ainda soa muito como quadrinho sci-fi europeu.

É como se você pedisse pra Frank Frazetta fazer um knock-off de Star Wars nas horas vagas em que ele ilustrava Conan, e Frazetta acabasse pedindo algumas dicas pro Moebius sobre o que fazer, porque já era 5 da manhã e ele já tava bêbado de Monster.

Não é a melhor opção, mas é um bom exercício: assista Mestres do Universo esquecendo que He-Man existe, e vai encontrar um filme tão ruim que é bom.

A propósito, She-Ra poderia ter aparecido no filme, existe uma arte conceitual.
Não sei onde encaixar essa informação, então tá aqui ela, parecendo uma prostituta galática, como era moda na época.
...eu acho
 

Anos depois, várias tentativas de reviver a franquia depois, e a Mattel decide, talvez apoiada no sucesso de Barbie, fazer um filme do He-Man. No ano de nosso Senhor de 2026, recebemos esse filme.

Mas a percepção da franquia e o zeitgeist cultural tornariam esse filme algo completamente único.
 

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Mestres do Universo (2026)


Eu não sei se é He-Man e os Mestres do Universo ou só Mestres do Universo. Eu acho curioso usar o nome do personagem junto com o bando que também o identifica.
Ok, eu acho que não ficou claro.

Por exemplo, Alvin e os Esquilos. Alvin também é um esquilo, pra que diferenciar ele? Josie e as Gatinhas, Josie também é uma gatinha, não só por ser um broto, mas porque ela também usa um leotard de gato e orelhas de gato num gigolette.
...agora que eu paro pra pensar, não é um leotard de gato, é um leotard de oncinha! Ou tigresa, dependendo da versão ou do ilustrador.

O que significa que Josie, Melody e Val teriam uma boa chance de integrarem o programa do João Inácio Show.

...onde eu tava? Ah sim. He-Man é um mestre do universo, não? Então porque "He-Man e os Mestres do Universo"? Aliás, achei que só quem tivesse o poder de Greyskull seria o controlador do Universo, então...
...
A lore de He-Man é uma bagunça, não sei porque eu tento colocar ordem em coisas que foram decididas de última hora por um monte de executivos improvisando idéias pra não perderem o emprego.

Não, sério, vejam The Toys that Made Us na Netflix, é uma baita série documental. Me fez ter respeito pela Sanrio e pela Hello Kitty.

Gastei 6 parágrafos e nem toquei no assunto do filme, mas vocês ainda estão aqui. Ainda bem que blog não opera na mesma lógica que vídeo, senão vocês já teriam se entediado.


A história começa com o príncipe Adam, um moleque tão baixinho e franzino que caso entrasse num duelo contra o urso Fozzie, viraria sarapatel. O Mentor até que tenta torná-lo o homem guerreiro que ele precisa ser, mas sem muito resultado, o que deixa o rei extremamente decepcionado.

Mas sentimentos têm que esperar, porque o Esqueleto invade e toma o castelo de Greyskull, e a única alternativa é mandar Adam pro mundo dos humanos com a espada do poder e...
...
Isso me é... bastante familiar.
...huh.

Quem diria que He-Man teria uma história de origem parecida com a do Superman?
Digo, os dois meio que coexistem nos quadrinhos anyway.

Os anos se passam e Adam vira um chadão digno de jogar o Neo Geo, mas é capado pelo simples fato de trabalhar feito um condenado num escritório de recursos humanos, enquanto procura a espada que se perdeu no meio do caminho entre Etérnia e o nosso mundo.

Após vários shenanigans com um vendedor misterioso da OLX, ele encontra a espada, e aí Teela aparece crescida e parecendo a nãoVeronica ruiva, e o leva de volta pra Eternia, onde irá cumprir seu papel de herói, não sem antes ter que aprender o que é ser um homem de verdade.

E no meio do caminho, ele vira um Kamen Rider ou algo assim.

"Jouchaku!"

O filme famosamente dividiu os nerds em dois times, aqueles que gostaram do filme e aqueles que odiaram, seja lá por qual motivo. Uns focaram mais nos aspectos lacradores, e outros sentiram falta do herói do desenho animado, o que é a mesma coisa que odiar o Batman do Tim Burton porque ele não usou um bat-spray de insetos ou saiu correndo pelas ruas com uma bomba gigante na cabeça.

O único resquício de lacração é o Mentor ser negro, já que ele sempre foi branco (às vezes com e às vezes sem o bigode), mas eu enxergo como um tempo do meio termo, vamos ter resquícios disso devido ao tempo de produção (Idris Elba entrou no filme em meados de 2022, se não me engano), mas é algo que vai tender a sumir, pelo menos em filmes que não almejam o Oscar.
E exceto se o novo desenho do He-Man com os designs do filme fizer sucesso, mas enfim.

Apesar disso, o filme se mantém extremamente fiel às raízes do que é He-Man e os Mestres do Universo, uma história sobre a eterna luta do bem contra o mal, de maneira simples e direta com algum sabor pra te deixar investido.

É uma história de origem, como já nos habituamos de ver com outros tantos super-heróis, o que soa bem mais amigável do que o filme de 87 tenta fazer, te jogando no meio da ação sem nenhum tipo de contextualização.


Adam é supermanizado pra Terra, passa anos sendo tratado como louco por todos ao seu redor, tem todos seus aspectos masculinos reduzidos devido ao ambiente de trabalho, e quando chega em Eternia, seu lar está mais surrado e e sem vida do que se tivesse sido invadida por muçulmanos. 

Ele precisa convencer não só aos eternos, mas também a si mesmo de que ele é o herói prometido. É um homem que tem a grandeza imposta a ele, mas devido aos anos junto aos humanos, sofreu um atrofiamento de suas melhores qualidades.

Muitos reclamam que Adam é um bobalhão que tenta resolver os problemas na conversa ao invés da porrada... exceto que isso é traço do desenho oitentista. O He-Man animado era 100% sobre lições de moral (porque something, something, não ser só uma propaganda de brinquedos por 20 minutos), e tentar resolver no diálogo primeiro tá de acordo com o tipo de lição de moral que eles dariam.

Eu mesmo fui criado com a filosofia de resolver no diálogo sempre que sofria bullying na escola (inclusive indo antes pra coordenação), e se não resolvesse, só então eu socaria alguém. Tenho certeza de que muita gente foi criada assim, e era algo que desenhos animados de ação da época (não limitados a He-Man) tentavam ensinar de um jeito ou de outro.

Claro, em níveis variados, mas ainda assim. Existiam algumas normas que órgãos reguladores da época impunham sobre as emissoras, e é por isso que temos a música dos países em Animaniacs.

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Mas no filme, isso se deve à própria formação do Adam crescendo como humano, algo que é refletido em outros aspectos (que me fariam entrar no campo dos spoilers, mas tou tentando evitar), e que é mais uma crítica a como a sociedade vem tratando os homens masculinos de uns tempos pra cá.

Era a intenção do diretor? Talvez não, porque em um dado momento, Adam usa seu conhecimento de gerência humana pra motivar os guerreiros... aos trancos e barrancos, mas ainda assim. Me parece que ele quis passar que nenhum dos extremos é bom, e que há coisas úteis em ambos os lados, o que é uma verdade.

Mas ainda assim, ao final do dia, quando Esqueleto se mostra como a própria encarnação do mal (como deve ser), He-Man abre uma belíssima lata de whoop-ass (como deve ser).
Acho que isso não é spoiler, seria como dizer que o Superman salva o dia no final.

 

Dito isso, o filme tem um senso de humor excelente sobre ele mesmo. Considerando a percepção moderna sobre a série (alimentada pelos memes da internet na época que era legal estar na internet), a comédia é baseada tanto em situações awkward entre os personagens, mas também em caçoar levemente de alguns clichês.

No entanto, não é muito próximo do que se pode chamar de "comédia MCU", onde o diálogo é engessado e previsível, aqui o negócio flui de uma maneira mais natural, e às vezes até ligando com algo que dentro do universo, faz sentido.

O melhor exemplo que eu consigo dar é de um momento que Adam se retira de perto dos seus amigos pra se transformar em He-Man, como se fosse uma identidade secreta. Um dos personagens fica meio "ow mas ele sabe que a gente sabe quem ele é" e outro diz "nah, deixa o garoto brincá".

Esse momento funciona, porque traz algo da série animada, condiz com uma das lições de moral do filme (de ser autêntico a si mesmo), e ao que o filme estabelece, porque um maluco que cresceu na nossa Terra absorvendo super-heróis claramente ia deduzir que alter ego equivale a uma identidade secreta.


O desenvolvimento dele também tá atrelado ao de outros personagens. Após à invasão, o Mentor entrou numa crise depressiva e Teela teve que assumir a liderança... mais ou menos. É implicado que ela não tinha autorização pra ir pra Terra e tava presa... eu acho.

Tem uns buracos no roteiro como esse, e a própria reação do Mentor. Não é estranho que ele tenha se culpado tanto e por tanto tempo a ponto de virar um mendigo bêbado jogado aos cantos, mas a explicação que ele dá é meio frouxa, algo na linha de "prefiro que minha filha me veja como um bêbado do que como um fracasso". Parece o raciocínio de alguém que já desistiu, uma lógica que só funciona na cabeça de alguém com depressão profunda, mas o filme nunca trata isso de acordo.

No entanto, o diálogo do Mentor com Adam é sensacional.

Esse é um dos momentos-chave onde o heroísmo de He-Man começa a ser formado, e o conceito do herói altruísta se estabelece. É justamente o tipo de coisa que eu senti falta nos últimos filmes de heróis, sobretudo de heróis maiores que a vida.
Eu não vi o último Superman tho, não sei se fazem algo parecido, mas deveriam.

Pra fechar, a trilha sonora é espetacular. Usa e abusa de temas que ecoam power ballads/power anthems dos anos 80, mas de uma maneira que soa natural ao filme e a estética, e não só porque Stranger Things existe e eles querem riscar um item de uma lista de gráficos com estudos de mercado.

Eu não sei explicar, mas sintetizadores combinam muito com aventuras fantasiosas grandiosas com ares etéreos. Labirinto que o diga.

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Aliás, o filme tem um dos melhores momentos de setup e payoff envolvendo uma música em específico, mas de novo entramos no campo de spoilers. Talvez uma parcela do público seja jovem ou falta em cultura pra entender, mas é um toque legal.

Eu tenho só um problema com o uso de Whats Up do 4 Blondies, que vem do meme que até o marketing do filme começou a usar. Na esquete que viralizou, Adam conta como ganhou seus poderes ao gritar HEYYEYAAEYAAAEYAEYAA, e dado que no momento ele estava com a espada...

Eu sei, seria imbecil se ele se transformasse pela primeira vez, num momento que deveria (e é) épico, fosse uma literal referência a um meme de 20 anos atrás MEU DEUS COMO EU ME SINTO VELHO.

Mas ao mesmo tempo, fica meio solto no meio da cena. Nada que um tapa na edição resolvesse, no entanto, eu não lembro bem se a música tava tocando no rádio no momento. O "what's going on?" combina com a cena e dá um certo humor involuntário mesmo que cê não conheça o meme.

De fato, esse é um dos maiores trunfos do roteiro, na minha opinião. Claro, toda a temática do verdadeiro herói, estabelecer que existe um mal absoluto e que deve ser combatido, são necessários ao He-Man e ao mundo em que vivemos, mas ao meu ver, é extremamente difícil fazer referências que agradem aos nerds fissurados à beira de um coma autístico sem que o público normal não se sinta perdido.


É um sentimento horrível quando o filme faz uma referência, você sente, por instinto, que é uma referência, mas não sabe a origem, logo não consegue entender a piada. Cê se sente meio burro e isolado do grupo, e com a sensação de que aquele filme não é pra você.

Mas Mestsdoniverso não faz isso. Claro, há momentos como o da loja de colecionáveis, que vira um verdadeiro "Cadê?" da Revista Recreio, mas faz parte da ambientação.

Ok, só um exemplo que eu vou usar no artigo sobre os quadrinhos do He-Man. Em um momento, Teela pergunta pro Adam qual seria o apelido que ele daria pra ela, e ele de supetão diz "uuhhh é... Deusa... Guerreira", de maneira completamente avoada como de quem acabou de pensar nisso pra não ofender a amiga.

Funciona porque é um momento de humor awkward que o filme veio desenvolvendo desde o começo, mas também, nos mini-quadrinhos que acompanhavam os bonecos, Teela era um clone da Deusa, que é uma personagem precursora da Feiticeira, cujo nome era... Te-la.

Isso era basicamente pra justificar porque raios a Teela tinha um capacete de cobra igual o da Deusa, que era outra figura da coleção e que já tinha aparecido nos quadrinhos da DC. Quadrinhos esses em que a Teela era loira e o Mentor não tinha bigode, mas também que em um erro de atenção do revisor (como vários outros, aliás), a Deusa é desenhada numa cena onde devia estar Teela.

Eu só descobri isso depois do filme e tudo fez mais sentido pra mim, sobretudo porque a Teela da série da Netflix virou a Feiticeira.
A série boa, não aquela esbórnia do Kevin Smith.
 

De facto, talvez o melhor exemplo seja a pistoleira que é até nomeada, mas cuja única aparição fora do filme é uma tira de jornal onde aparece por talvez dois momentos.
Em outras notícias, teve uma tira de jornal do He-Man.
...
Sabe porque eu demoro pra fazer esses artigos? Porcausa dessas tocas de coelho que eu me meto. Originalmente meu objetivo era relatar isso no Post Blogum, mas meu foco é tão pífio que nem pra isso eu tou conseguindo organizar os temas.

Mestres do Universo é um baita filme divertido de fantasia, que consegue equilibrar as referências aa coisas conhecidas e obscuras da franquia, tirar sarro de elementos antiquados sem soar como Shrek, e ainda ter lições de moral reais e úteis, sobretudo para meninos, o que é uma lufada de ar fresco.

A comédia é engraçada, a aventura é interessante, os personagens são gostáveis e a ação tem um bom equilíbrio entre troca de soco franca, duelos acrobáticos, e ação oldschool do tipo "o herói é tão forte que ele abriu uma montanha com as mãos".

É uma excelente adaptação do que a franquia representa, tanto em aspectos nostálgicos, como nerd, e ainda aponta um futuro pro universo cinemático do príncipe Adam no cinema.

É, o filme teve uma bilheteria ruim, mas a MGM-Amazon sabe que o negócio é streaming e venda de brinquedos, tão apostando numa sobrevida no Prime Video e já tem rumores de terem liberado uma sequência.

E hey, nada impede que outro ator tome o lugar do Idris Elba como Mentor. Ele faz um excelente trabalho de atuação, assim como todos no elenco, mas eu adoraria não ter que fazer a piada de "se eu tivesse uma moeda pra cada personagem ruivo que o Idris Elba foi escolhido pra cometer gingercídio, eu teria duas moedas, o que não é muito, mas é estranho que tenha acontecido duas vezes".

Eu ri, eu chorei, foi muito melhor que Cats.

"Não como bem assim desde que
o Pop's fechou as portas."

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