Tio Walt - Parte 9: Mary Poppins
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Mary Poppins é um filme cujo histórico de produção é tão interessante quando o produto final. Raio, a própria Disney fez uma dramatização sobre isso.
Walt prometeu a suas filhas que ele faria o filme, e insistiu por anos até conseguir os direitos e trazer a autora dos livros, P.L. Travers, pros EUA, pra então ela ficar brigando com todo mundo que quisesse adaptar alguma coisa na adaptação. Mas ela fez algumas mudanças que foram criticamente necessárias, como não transformar o Sr. Banks em um vilão.
O filme conta sobre George Banks, um dos sócios do banco da Inglaterra. Ele tem dois filhos, Jane e Michael, que não tem muita atenção dos pais, porque George é um workaholic que quer passar a impressão de que tem controle sobre o lar; e a mãe Winifred é uma ativista pelo direito do voto feminino. Então, as crianças ficam praticamente o tempo todo com babás, que nunca suportam as crianças, porque aparentemente elas pregam peças nelas.
Nunca vemos de fato, mas é sugerido.
As crianças fazem uma carta com as qualificações da nova babá, onde ela seria bonita, cuidadosa, dentre outras coisas importantes e sutis.
Sr. Banks odeia a idéia, rasga a carta, e manda que publiquem a versão da "babá general". Ao invés disso, aparece Mary Poppins, que recebeu a carta rasgada.
E assim ela leva as crianças em passeios junto de seu amigo Bert, que é de longe um dos meus personagens favoritos de todos os tempos, bem como um dos modelos de seres humanos que eu almejo.
É sério.
Mas acreditem em mim, essa idéia tá longe daqui.
Em um dos passeios, Mary acaba levando as crianças e Bert a um dos quadros feitos em giz de cera, onde temos sequências fantásticas como Jolly Holiday e Supercalifragilisticexpialidocius.
Jolly Holiday é onde temos não só uma música agradável de se ouvir, acompanhada com uma das mais belas misturas de live-action com animação que você verá, mas também exalta algumas características dos personagens de uma forma que não se vê tanto hoje em dia.
Mary destaca como mesmo não tendo nenhuma posse ou nome importante, Bert ainda é um cavalheiro, uma pessoa gentil, que não pressiona ou faz amizade por vantagem. Essas características são o que a faz descrever como "sangue azul", porque elas o dão a aura de nobreza. Mas daqui a pouco eu falo mais a fundo sobre os personagens.
E rapaz, olha o tanto de esforço que esses caras fazem. Toda a sequência levou uma semana pra ser gravada, e tiveram que gravar duas vezes por problemas técnicos com a lente da câmera.
Esses caras fizeram tanto esforço que eu acredito que as dores nas juntas vão ser passadas geneticamente até as próximas quatro gerações, mas eles tão lá, fazendo acrobacias, pulando dando cambalhota, e sorrindo como se fossem crianças com uma cortesia da 50 Sabores.
E há um equilíbrio fantástico entre os dois momentos, o passeio sendo mais desenvolvimento de relacionamento entre os personagens e claro, dar aquela dose de diversão pras crianças (porque corrida, raposas, pinguins, animação, e Supercal), e Step in Time sendo mais teatral, mas sem deixar de ser meio cartunesco.
Aliás, os pinguins foi idéia de Walt. Nos storyboards, eram garçons comuns, até que Walt disse "garçons me lembram pinguins. Bota pinguins pra serem garçons."
Entre uma coisa e outra, ainda há uma sequência de chá no teto com Ed Wynn, que... É uma das coisas que eu não gosto muito no filme. Sempre que acaba a música Stay Awake eu já fico "oh, raio, vamo pra sequência mais chata do filme". E... Eu creio estar certo, é uma das sequências mais monótonas do filme, que se resume aos personagens ficarem rindo sem parar, contando umas duas ou três piadas antiquadas, sem nada relevante acontecendo.
Mas ainda assim, tem algo aproveitável. Eu não consigo não apreciar o esforço em fazer acreditar que o que estamos vendo é real. Foram usados vários truques durante a cena, e quando tu naturalmente consegue deduzir um, a cena já corta pra outro efeito diferente, te deixando meio perdido.
Fora que, mesmo com a atuação relativamente fraca de Ed Wynn, ele ainda é divertido à beça, ele tá realmente tentando fazer algo a mais com o personagem, mesmo que seja um momento curto e não muito memorável, comparado aos outros.
Mas de longe, um dos momentos mais memoráveis é a música Feed the Birds. Nela contém a base moral do filme, que basicamente diz pra aproveitar o tempo que temos e ajudar aos outros, nos importar mais com os outros, fazer aquelas pequenas ações de gentileza. E às vezes é algo que não custa nada, mas que pode fazer uma diferença grande.
Eu concordo que a ilustração de alimentar os pombos não seja muito viável hoje, mas eu sempre tento enxergar como uma atividade corriqueira, algo como o pai vai passear com o filho e eles passam aquele tempo ali, alimentando os pombos enquanto conversam, enquanto falam sobre os pássaros, ou algo assim.
Aliás, essa era a música favorita de Walt, e foi a música que fez com que PL Travers aprovasse o filme (e não Let's Go Fly a Kite, como mostrado em Saving Mr. Banks). Quando Walt ia visitar os Irmãos Sherman, ele só dizia "toca aí", e imediatamente eles tocavam Feed the Birds.
Quando ela é carinhosa, tu sente o calor na voz dela. Quando ela tem que ser mais autoritária, ela consegue ser ameaçadora e firme. E quando tem que se despedir das crianças, mesmo que ela diga que não pode amá-las, porque ela não pode amar todas as crianças que ela já cuidou, ela consegue transmitir perfeitamente o sentimento de dor e saudade de uma forma velada. Isso fica ainda mais evidente no final, quando ela vê que seu trabalho foi cumprido, sua expressão é como um misto de satisfação e tristeza.
Olhem pra cara dele, ele não tem onde dormir mas tá com um sorriso do tamanho do Aeroporto de Guarulhos. E ele faz todo trabalho com esse sorriso no rosto, ele é praticamente o Seu Madruga sem a parte da preguiça e mais alegre.
Bert conhecia a família, conhecia os problemas, e só tava esperando a oportunidade pra poder conversar com as crianças e tentar ajudar como possível. Vemos também um dos grandes trunfos do roteiro, que é escrever crianças como crianças reais. Quando Bert fala sobre George estar preso em uma gaiola, as crianças pensam literalmente, e a coisa mais próxima é a cadeia. E isso é muito real, criança pensa de forma muito concreta, não consegue entender muito bem analogias e metáforas.
Mas também tem o momento em que eu sempre choro. Sim, eu ao menos derramo algumas lágrimas e soluço um pouco. O que Bert fala é muito palpável, e não só a pais. Eu mesmo já passei por situações parecidas, e eu posso dizer, ajuda é necessária. E nesse momento, as crianças aprendem uma valiosa lição que será útil pro resto da vida.
Ainda sobre Bert, é notável que o sotaque dele é ridiculamente forçado. Mas eu meio que gosto dele. Dick van Dyke parece estar se divertido enquanto faz Bert, e ele tem aquele brilho nos olhos quando ele precisa ser solene, especialmente antes da sequência sobre os telhados.
Nos documentários, tu nota que é um trabalho de amor, de dedicação, de cuidado. E que embora eu até faça piadas sobre o quão amarga e razinza era P.L. Travers, a presença dela acabou sendo necessária pro filme, caso contrário Sr. Banks seria o vilão e tudo iria por água a abaixo.
Se tiver curiosidade e tempo, vale muitíssimo a pena comprar o DVD duplo, que tem todos os documentários que você precisa. Eu não tenho informações precisas quanto ao blu-ray, se alguém tiver, me avise que eu atualizo aqui.
Mas um filme familiar precisa agradar a várias faixas etárias ao mesmo tempo, e isso é algo dificílimo. Mary Poppins consegue não só agradar ao público infantil, dando imagens, música e cores atrativas a eles, bem como morais condizentes com suas idades; mas ao mesmo tempo consegue entreter adultos pelos efeitos visuais, pelas técnicas, pelas músicas (algumas que remetem àquele nosso lado mais criança e bobo), pelo esforço da equipe de produção, dos atores, mas também pelo nível de roteiro, de personagens, bem como a moral que os atinge feito uma bazuca.
E quando crescem, eles não conseguem ter um bom relacionamento com eles porque perderam a fase da infância, que é tão preciosa e necessária.
E coisas tão simples poderiam remendar essa situação no momento certo. O filme abre com as crianças atrás de sua pipa, que eles mesmos fizeram porque seu pai não tinha tempo pra fazer com eles, e a pipa acabou rasgada.
E lá vão eles, empinar pipa. Uma atividade tão simples, tão banal, tão barata, mas que vale muito.
O único "defeito" que eu poderia apontar é que, pras crianças de hoje, talvez seja um filme muito lento. Crianças abaixo de 6 anos talvez não se interessem muito, o que é normal. O começo é bastante lento e demora até alguma coisa de fato saltar aos olhos delas. Dê um pouco mais de idade e tente mostrar de novo.
Mas mesmo com isso, é um filme lindo, necessário, divertido, e inteligente.
Eu sei que é clichê, mas dane-se. Mary Poppins é um filme praticamente perfeito em todos os sentidos, a verdade é essa.
Walt se sentia tão apaixonado pelo projeto,que ele foi pessoalmente numa pré-estréia de Mary Poppins, coisa que ele não fazia desde Branca de Neve.
Pois é!
Mas isso não impediu Walt de prosseguir. Esse foi o ponto alto em sua carreira, de fato, mas a vida continua, e havia mais livros a se adaptar. Até num processo similar a Mary Poppins, onde de fato pouca coisa do livro acabou sobrevivendo. O que, claro, não estraga o resultado final, mas veremos com calma.
Como bônus, deixo dois vídeos do André Rieu, Supercal e Feed the Birds. E eu quero que notem especificamente em Supercal, as reações das pessoas mais velhas. Algumas delas provavelmente viram o filme quando pirralhos, e tão vivenciando aquilo.
Isso é a magia do entretenimento pra mim. Isso é lindo.
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